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domingo, 19 de janeiro de 2014

Ingrid - Teresa Santos


E de repente Ingrid sumiu do nosso convívio.
Não a víamos mais com seu monólogos em alemão.
Caminhava sempre de cabeça baixa, com os cabelos cor de palha escorridos e que escondiam uma beleza que se desmanchava a cada dia.
Somente seus impressionantes olhos azuis lhe davam vida.
E dizer que a conheci quando a magreza não fazia parte de seu corpo.
Era uma mulher do tipo mignon. Quase gordinha.
Trabalhava como secretária executiva da presidência na Volkswagen e muitas vezes nos encontrávamos no ponto de táxi.
Ela, ao contrário de mim, estava sempre atrasada. Os motoristas do bairro adoravam levá-la porque o dia deles estava praticamente ganho com uma corrida tão longa. Quantas vezes a deixei passar na minha frente, quando só tinha um carro.
E em um estalo desapareceu. Não a via mais e nem aos sábados quando fazíamos compras no supermercado.
Soube depois que viajara para a Alemanha e que lá conheceu um alemão de origem africana.
Viveram um tempo juntos até que o romance acabou. Retornou ao Brasil e nunca mais foi a mesma.
Emagreceu, deixou os cabelos crescerem sem cuidado e começou a falar sozinha e em alemão.
Outro dia perguntei por ela a um conhecido comum.
Contou-me que tinha sido internada em uma clínica psiquiátrica. Os filhos não sabiam como proceder com ela, logo após ter quase incendiado o apartamento onde morava sozinha.
Fiquei chateada ao saber da notícia e procurava entender o que será que teria acontecido para que aquela inteligente e bela mulher surtasse daquele jeito.
Foi então que um pensamento, sempre recorrente, veio à minha mente:
- A sanidade e a loucura estão separadas por uma ínfima linha chamada razão. Uma vez rompida o desastre é inevitável.
 
 
Da série: "Olhar Urbano"
 
 
 
Teresa Santos, 62 anos, paulista. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Rose e o celular, da série: Olhar Urbano - Teresa Santos


Foram quarenta e cinco minutos, divididos em três telefonemas de estratégicos quinze minutos.
No primeiro ela dizia que iria ao cinema acompanhar a senhorinha que estava sob seus cuidados. Não poderia estar com ele e que dormiria no emprego.
E uma discussão, sem mais nem menos, começou.
Aquele sotaque vindo - quase certeza - do Ceará ecoou dentro daquele ônibus e consequentemente nos meus ouvidos, pois eu estava sentada no banco da frente.
Um bla...bla... bla...interminável e que terminou com um seco:
- Tchau!.
Eu, que até então tentava escutar músicas, pensei comigo:
- Ufa! Acabou!
Ledo engano.
E lá foi a fulana para o seu segundo telefonema.
Desta vez para o pai. Repetiu não sei quantas vezes as mesmas frases e a palavra painho. Tudo indicava que o homem era surdo.
E começou com a despedida.
- Bença, pai. Depois nois conversa.
Estava crente que desligaria,  quando recomeçou uma conversa sobre a saúde da mãe.
Nesta altura eu já havia tirado os fones do ouvido e resolvido engantar um cochilo  embora soubesse ser impossível.
E novamente o tal do “Bença, pai. Depois nois conversa” encerrou definitivamente a ligação.
Pensei  que aquela matraca finalmente iria calar, quando ouço...
- Chica, tu sabe quem tá falando? É a Rose. Tu tá bem tá?
Aquela boca, semelhante a uma metralhadora, desembestou novamente a falar...a falar....
Percebi que o motorista também notou e começou a conversar com o cobrador.
- Fulano, tu pensa que tá em casa é? Tu fala pra *******   hein? Tá ouvindo?
E o cobrador:
- Tô. Sim. Och! Tu fala pelos cotovelos hein colega?
De repente Rose solta esta frase:
-  Chica, vou precisar desligar porque estou com sinusite e morrendo de dor de cabeça. A garganta “tá” seca. Não posso falar muito!
Quando, finalmente, fechou a matraca cheguei ao meu destino.
 
 
Teresa Santos, 62 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

domingo, 11 de agosto de 2013

Meu pai - Teresa Santos

Trabalhou dos 16 aos 58 anos.
Dos 58 aos 91 aproveitou, com parcimônia, sua aposentadoria.
Não ganhava bem, mas também não ganhava mal. Nunca dependeu dos filhos.
Casou-se com o único amor de sua vida, minha mãe. Viveram juntos 60 anos, que não conseguiram completar pois ela  faleceu 17 dias antes.  Naquele triste 11 de dezembro de 2006.
Não completou o curso primário pois tinha que trabalhar. Ajudava minha avó a cuidar da chapelaria do meu avô, quando este desistiu de viajar pelo Brasil.
Minha avó era uma mulher encantadora. Alta, forte, descendente de alemães era ela quem tocava a casa e o pequeno negócio - chapelaria - nas longas ausências de marido. Ausências estas que ela conhecia muito bem.
Meu pai tudo via e nada podia fazer, pois meu avô tinha um gênio irascível..
Faleceu com uma enorme mágoa e detestava quando eu dizia que devia ao "Velho" , como era chamado, meu gosto pelas artes em geral.
Minha avó aguentava tudo calada, pois era aquilo ou a rua.
E o tempo passou. Aos 18 anos meu pai foi servir o exército e sempre dizia que foram os melhores anos de sua vida porque lá tinha roupa, sapatos e uma boa comida.
Ficou durante 3 anos e só não foi para a  Segunda Guerra porque o destino e Nossa Senhora Aparecida (palavras de minha falecida mãe) não quiseram.
Aos 27 anos casou-se com minha mãe que tinha 23. Antes comprou uma casa, pois dizia que nunca iria pagar aluguel igual ao seu pai.
Quando casou levou parte da família. Meu avô, minha avó, uma irmã e uma tia avó.
Em 1951 eu nasci. Quatro anos depois nasceu meu irmão.  Em 1955 uma tragédia abate sobre a nossa familia.
Ficou somente meu avó residindo conosco. Meu pai, o filho que ele tanto maltratou, foi o único a lhe estender a mãos. Os outros quatro filhos do primeiro casamento (esse sim, legalizado) simplesmente o abandonaram.
Meu pai era um homem que sempre cumpriu com suas obrigações. Considerado um profissional competente, quando foi mandado embora da Vidraria Santa Marina (onde trabalhou por 25 anos) devido a uma greve, e que ele não havia participado, sua profissão de  vidreiro foi deixada para trás.
Desempregado, e com filhos pequenos para sustentar, foi trabalhar como pedreiro e durante algum tempo ganhou a vida assim.
Até que apareceu uma oportunidade para trabalhar na fundição de uma empresa chamada Sofunge.
Foi então que o destino lhe dá uma oportunidade de trabalhar em um laboratório químico ao invés de ir para macharia.
Com uma força de vontade hercúlea lá foi ele. Aprender fórmulas e mais fórmulas e se tornar auxiliar de analista químico.
Até o final de seus dias se lembrava das fórmulas e eu o sabatinava e nos divertíamos, porque muitas vezes eu as esquecia e ele prontamente me dizia.
Na Sofunge  trabalhou durante muito anos também. Depois foi para a MWM, volltou para a Sofunge e lá se aposentou.
Quase para se aposentar era ele quem instruia os estudantes de química que lá estagiavam.
Não se considerava inteligente, mas eu sabia muito bem que ele era. Durante anos manteve a nossa humilde casa sempre em ordem. Era marcineiro, pedreiro, eletricista, pintor e tudo o que se pode imaginar.
Ele olhava uma vez como se fazia e pronto! Lá estava ele fuçando aqui e acolá.
Sempre nos ensinou o valor do trabalho e da honestidade.
Foi o homem mais bondoso e íntegro que conheci.
Vivia da casa para o trabalho. Do trabalho para a casa.
Sua vida era a esposa e os filhos. Nunca nos deixou faltar nada e tinha uma maneira peculiar de nos educar.
Dizia sempre que não deveríamos dar o passo maior do que as pernas e que uma vez "pé de chinelo, sempre pé de chinelo".
E era aí que entrávamos em discussão. Ele via a vida de uma maneira objetiva, quase crua.
Eu, do meu lado, a via de maneira mais suave e  lhe dizia que poderíamos mudar o nosso destino, de certa maneira, e mostrava  que eu era o exemplo mais próximo dele.
Afinal, ele sem estudo, deu instrução para os seus filhos seguirem a vida. Meu irmão, que detestava estudar, foi aprender uma profissão no Senai e durante anos foi torneiro ferramenteiro até que a empresa onde ele estava foi vendida e resolveu trabalhar por conta própria e se tornar motorista de táxi.
Meu pais diziam sempre uma frase e que me acompanha até hoje: " Cabeça oca é oficina do diabo".
Quando meu pai percebeu que meu irmão não queria estudar disse:
- Filho meu, não vagabundeia. Filho meu ou estuda ou trabalha.
Eu preferi estudar. E fizemos um trato: eu não trabalharia e me contentaria com o que ele pudesse me oferecer.
Tanto é que comecei trabalhar tarde. Aos 25 anos.
Meu pai, apesar de nossas divergências, sempre foi um homem com quem eu pude contar.
Diferente de meu avô tinha uma excelente índole. Não era mulherengo e nunca o vi em um bar bebendo.
Tinha pouquíssimos amigos e muitos conhecidos.
Viveu sua vida e sempre escolheu em não se espelhar em seu pai.
E eu dizia que apesar dos pesares meu avô foi um exemplo para ele. Um exemplo a não ser seguido.
Ele muitas vezes discordava. Só deu o braço a torcer quase no final da vida.
Este era meu pai. Um homem que sofreu nas mãos de meu avô e que não quis o mesmo para seus filhos.
Um homem que gostava de ouvir música. Tinha predileção por pistão, saxofone, trombone e banjo.
Que pedia para minha mãe tocar ao piano o tema do filme Em algum lugar do passado e Clair de Lune.
Que foi companheiro de todas as horas tanto para mim quanto para sua amada e seu filho.
Que adorava uma cervejinha (dizia que beber era bom, mas em casa), um bom vinho e sempre elogiava os pratos deliciosos que minha mãe preparava.
Que gostava de arroz doce, pudim de pão, "bolo porta de circo" (como ele dizia brincando), cassata siciliana (presente em todos os seus aniversários), de uma boa dobradinha, de uma gostosa feijoada e tantas outras delícias.
Que não gostava muito de ver TV, mas de um bom filme. Preferia escutar o bom e velho rádio.
Que admirava atrizes de carnes fartas (achava Sophia Loren o máximo) .
Há dois anos se foi. Tinha 91 anos. Lúcido e reclamando da política do Lula.
Lula que - semelhante à filha - detestava.
Dizia sempre:
- Este homem ainda vai acabar com o nosso país!

 Teresa Santos, 62 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Minha querida Sampa, por Teresa Santos


                                                                 Páteo do Colégio: Onde tudo começou...

Fico chateada quando leio textos de pessoas, pelas quais tenho profunda admiração, que falam mal de você.
E o que me deixa ainda mais entristecida é de verificar que algumas nem aqui residem. Nem a conhecem. Agridem simplesmente pelo prazer de agredir.
Quem a critica, e muitas vezes a espezinha, se esquece de inúmeros fatos que a acompanham nestes 459 anos de vida.
E olhe que você tem história para contar não minha querida Sampa?
Por exemplo...
Estas pessoas se esquecem que você já foi a colonia mais pobre deste meu Brasil
Se esquecem que já foi pequena, sem grandes problemas sociais e que já pudemos viver em suas terras sem medo
Se esquecem que você abriu o porto e as portas para os imigrantes que fugiam de uma Europa combalida por duas grandes guerras. Dentre eles meus bisavós alemães (os Schwarz) e portugueses (os Santos)
Se esquecem  que você abriu o porto e as portas para os Russos e os Chineses que fugiram da Revolução Russa e do domínio de Mao e de tantos outros imigrantes fugidos de alguma desgraça em sua terra de origem
Se esquecem que você abriu as portas para os irmãos nordestinos nos anos 30 que fugiam da seca para fazerem de você o que é hoje
Se esquecem que você é a 14ª cidade mais globalizada do planeta
Se esquecem que possui o 10º PIB do mundo e representa 12,6% de todo PIB brasileiro
Se esquecem que abriga 63% das empresa multinacionais estabelecidas no Brasil
Se esquecem que é responsável por 28% de toda a produção científica nacional
Se esquecem que é a 6ª mais populosa do planeta
Se esquecem que é a cidade mais multicultural do Brasil
Se esquecem que desde 1870, aproximadamente, 2,3 milhões de imigrantes chegaram ao Estado
Se esquecem que é a cidade com a maior população étnica, fora de seu país de origem, a saber:  a italiana, portuguesa, japonesa, espanhola, libanesa e árabe e com o maior contingente nordestino fora do Nordeste
Se esquecem que (ou ignoram) todas as grandes cidades têm seus problemas. Alguns bastante graves. Bastam sair do país e verificar como estão as outras no mundo
Se esquecem que se cresceu assim de forma aleatória é porque oferecia chances de nova vida para quem aqui quisesse trabalhar
Se esquecem que muitos filhos pródigos saíram e voltaram porque acharam que aqui era o seu lugar
Se esquecem que continua a carregar seu filho mais velho chamado Brasil, nas costas
Se esquecem que aqui nascem, vivem, crescem, evoluem com as oportunidades que ela oferece
Se esquecem de tudo isso e cospem no prato em que comem.
Se esquecem que é a única cidade no mundo em que árabes e judeus convivem pacificamente
Se esquecem que o termo Sampa foi criado por um baiano, em homenagem à terra que o acolheu
E conforme sempre digo aos que não estão contentes com o que vêem ou vivenciam em minha querida cidade:
- Os incomodados que se mudem.
Vão viver em outro estado e/ou em outra cidade e deixem a  minha querida Sampa seguir sempre em frente, com suas belezas, alegrias, feiúras e tristezas.

Teresa Santos, 61 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Olhar Urbano - O carrinho e o cheiro de boneca - Uma crônica de Natal - Teresa Santos


Hoje acordei com aquele cheirinho de boneca nova nas minhas narinas.
Talvez - devido à época Natalina - aquele odor se acentuou.
E de repente me vem à mente um dos meus natais quando criança.
Fazia um tempo nublado e eu sai à rua com o meu presente.
Queria mostrar para as amigas vizinhas o que Papai Noel (acreditei nele até os meus 9 anos de idade) havia deixado debaixo da minha cama.
Era um hábito entre a criançada. Sair à rua com seus brinquedos, roupas, sapatos novos...
Ganhei uma boneca linda e  ao desembrulhá-la da caixa, com papel celofane, aquele odor de borracha nova impregnou o meu quarto.
Papai Noel tinha acertado com o presente. Era exatamente o que havia pedido a ele em uma cartinha que preparei e que minha mãe havia levado ao correio.
Acompanhava um carrinho de bebê feito em vime com quatro rodinhas de madeira.
Hoje este brinquedo seria considerado humilde demais para a exigência da garotada.
No entanto, para mim era excepcional.
Saí à rua e fui passear com a minha filhinha cujo nome já havia escolhido há muito tempo: Cristina.
Mal eu sabia que este nome coincidia exatamente com a época.
Cristina e seu carrinho ficaram comigo durante anos. Só me separei deles quando resolvi doar meus brinquedos e já em idade adulta.
Mas a lembrança daquele momento entre o abrir a caixa, sentir o cheirinho e ir à rua esta nunca foi esquecida.
Tanto é que virou uma crônica.
Teresa Santos, 61 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida e se considera uma pessoa feliz.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Voyeurs, por Teresa Santos

Eles não estão em uma cadeira de rodas e com uma perna quebrada igual ao James Stewart, no filme Janela Indiscreta.
Também não usam binóculos ou lunetas possantes.
No entanto, semelhante à personagem do filme, gostam de assumir o papel de voyeurs..
Os olhos são a sua câmera fotográfica.Gostam de ficar na surdina. Na sombra.
Pacientemente visitam sites, alguns não muito recomendáveis, e se deliciam com o que vêem.
Solitários, adoram vasculhar a intimidade das pessoas e com a vinda do Facebook foi a "salvação da lavoura", conforme costumo dizer.
Às vezes curtem uma coisinha aqui ou acolá. Outras soltam um comentário sempre carregado de uma certa arrogância, descaso ou inconviência. Dificilmente são engraçados. E muitas vezes são amargos e tristes.
Quando estão, no entanto, diante da telinha é como se o mundo lhes pertencesse. Creio que sintam até um certo e bom tesão.
Criam páginas fictícias, por exemplo, somente para sentir a onipotência em acompanhar quem não os quer.
Não passam pela suas cabeças que algumas pessoas percebam suas atitudes.Talvez porque subestimem a inteligência alheia.
E nós que percebemos - e que gostamos de mostrar a cara - indagamos por que as pessoas fazem isso. Por que se escondem? Por que criam algo que não existe? Por que adultos se prestam a um papel destes?
Não saberia responder. Embora tente.
.
A palavra vem do francês que significa "ver" e em português o "voyeurismo" seria escopofilia aquele que presencia a distancia e secretamente.
Muitos "voyeurs" canalizam sua parafilia através da Internet, onde são numerosos os sites em que se colocam câmeras supostamente indiscretas. Os "voyeurs" saciam assim suas fantasias e desejos, "sem infringir" a lei.
Olhar e fantasiar é saudável e natural, mas quando existe um comportamento doentio e sofrimento emocional envolvido ou seja, o voyeur sofre por se sentir escravo desse prazer, é preciso procurar ajuda de psicólogos.

Teresa Santos, 61 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

sábado, 28 de julho de 2012

Cadeira de Balanço - Teresa Santos


Todas as vezes que vejo a imagem de uma cadeira de balanço lembro-me da tabuada.
O que tem a ver uma coisa com a outra?
Minha mãe, que tinha psicologia infantil nata, aliou o folguedo à uma matéria que nem sempre teve a minha admiração: a matemática.
Conforme sempre cito aos amigos:
- O meu negócio é lidar com a palavra.
Ela, então, lavava roupa na área de serviço e eu ficava no balanço, feito pelo meu avô paterno à sua neta preferida, e que foi pendurado em uma frondosa goiabeira que até hoje está no fundo de nosso grande quintal.
E lá ficava eu...Pra cima e pra baixo...Pra cima e pra baixo.
E a ladainha era sempre a mesma:
- 7 x8?  perguntava minha mãe.
E eu respondia, dando um impulso bem alto ao balanço:
- 56!
- 9 x 9?
E e eu gritava: 81!
Foi assim que aprendi a tabuada para o resto de minha vida e graças à sabedoria materna.
 
 
Teresa Santos, 61 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

domingo, 13 de maio de 2012

Saudade de minha mãe - Teresa Santos

Hoje enquanto para muitos é dia de comemoração para nós é saudade.
O nós, a quem me refiro, são todos aqueles que não têm mais o privilégio de ter a Mãe ao seu lado.
Hoje é o dia da Saudade.
Saudade de uma abraço carinhoso, de um beijo na testa, da comida preferida feita com carinho, daquele conselho que tanto me fazia bem e calhava direitinho com o meu problema, saudade do sorriso, do assobio, das viagens feitas juntas. De seu deslumbramento diante da Natureza.
Saudade, principalmente de sua voz quando me ligava ao celular e dizia:
- Terê, onde você está filha? Já é tarde. Não trabalhe tanto. Você quer que eu prepare algo para você comer quando chegar?
Saudade doída que aperta mais nas datas de seu aniversário e na de hoje.
Seu perfume preferido, Anaïs, Anaïs, o último presente que lhe dei em maio de 2005, está intacto. Não ouso abri-lo. Era a sua marca. 
.Ás vezes eu o sinto perto de mim e sei que é ela quem está por perto. Porque mãe, não morre. Ela se eterniza em nós seus filhos.
É quando a saudade ameniza e  sei que ela está melhor do que eu. É quando percebo o quanto fui privilegiada por desfrutar de sua presença e de seu amor por 55 anos.
Hoje é dia de Saudade.
Saudade de Dona Egydia.

Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Olhar urbano - O presente do chefe, Teresa Santos

Ele chegou com aquele sorriso indisfarçadamente irônico e esticou a mão.
- Toma! Este é o meu presente para o dia das secretárias.
E continuou:
- Você vai receber  um outro em nome do escritório. Mas este é o meu . E enfatizou no pronome possessivo.
Agradeci. Era uma caixa de palha envolta em papel celofane e um com um grande laço de cetim vermelho.
Olhei e vi que eram produtos de beleza e uma sensação de “déjà vu” passou pela minha cabeça.
Deixei-a em um canto e resolvi abri-la, com calma, em minha casa.
Algumas horas depois, lá vem ele novamente me dizer:
- Tê (é assim que ele me trata) verifica se eu não deixei a etiqueta com o preço. Você sabe como sou distraído. Já cometi muitas gafes por ser assim. Dei uma olhadinha rápida e disse que estava tudo correto.
Ele já ia saindo quando salientou:
- Você vai gostar destes produtos. Eu os uso.
Não me ative àquela frase...”Eu os uso” e continuei com o meu trabalho.
Cheguei em casa e tranquilamente comecei a desatar o laço quando uma visão passou pela minha cabeça:
... Meu chefe adentra no escritório com uma caixa, com papel celofane, que ele havia ganhado como brinde em um almoço para executivos organizado pelo empresário João Dória Jr.
Meu dedos, então, aceleraram na abertura daquela caixa e qual não foi a minha surpresa ao constatar que eram...brindes!!!
Aquela bela cesta não tinha sido comprada por ele!!!!
Todo aquele blablablabla de etiqueta com preço era pura balela.
Ele, ao guardar na sua casa, esqueceu-se por completo que os produtos eram brindes e criou toda uma história para se mostrar gentil e simpático!
Uma raiva se apossou de mim. Xinguei-o de tudo quanto foi palavrão. Senti-me desprezada, enganada, desrespeitada.
Liguei para uma colega, para desabafar a minha ira e ela confirmou tê-lo visto levando para casa a tal caixa.  Foi aí que mais possessa fiquei.
Não tive dúvida. Guardei a cesta e coloquei os produtos (shampoos, creme rinse, blush, estojinho de maquiagem, batom, e outras quinquilharias) dentro de uma sacola.
No dia seguinte, lá estava eu distribuindo os produtos “comprados com carinho pelo chefe” nas mesas das colegas de trabalho.
Somente aquela colega/amiga sabia do por que de minha atitude. Para as demais, eu dizia:
- Aceite este presentinho, do Papai Noel fora de hora.
Tempos depois ao comentar  com outro colega, sobre este assunto, soube que ele fez a mesma coisa com a namorada.
Ao retornar de uma viagem do exterior se esqueceu de comprar algo para ela e deu-lhe aqueles pequenos sabonetes que ficam no toalete do hotel !!!
A namorada, ao receber aquilo, teve um acesso de raiva, jogou fora e ficou sem falar com ele uns bons quinze dias.
Eu, do meu lado, esperei o momento oportuno.
E aconteceu quando no dia 08 de Março um almoço foi organizado para as mulheres do escritório.
Fui a única que não compareceu.
Foi a forma – delicada – de lhe dizer:
- Dispenso a sua gentileza.  O conheço de velhos carnavais.
Comemorei a data sozinha. E muito bem por sinal. Fui andarilhar pela Av. Paulista, aportei na Livraria Cultura, depois fui a um restaurante árabe de velhos conhecidos meus, tomei um banana split que há muito desejava e voltei para casa.
Ao chegar um ramalhete de rosas vermelhas e amarelas me aguardavam. Vieram de muito longe.
E para encerrar aquele dia, meu querido irmão preparou um jantarzinho especial para mim.
Fiquei sabendo que meu chefe – embora não tivesse sido convidado – apareceu no final do evento para fazer as suas gracinhas habituais e mostrar-se gentil com o chapéu alheio.
Notou a minha falta e perguntou porque eu não tinha ido.
Inventaram uma desculpa e ficou tudo por isso mesmo.

Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Olhar Urbano - Desprendimento ( Teresa Santos )


E eu o deixei ir. Não tinha mais jeito.
Ou o eliminava do meu coração ou piraria. E ficar louca de amor, não estava em meus projetos de vida.
Vi que ele nunca soube avaliar a ternura, o carinho e o amor  a ele destinados, desde praticamente sempre.
Fui para ele apenas um passatempo. Uma companhia para diminuir a solidão de duas pessoas maduras e que poderia ser descartada a qualquer hora.
Há algum tempo pude ter a exata dimensão do acontecido: tornei-me somente o preenchimento de um vazio.
No entanto, em minha cabeça, aquele "carinho" - que ele parecia demonstrar por mim - tinha outro significado. E me enganei.
Confesso que me desprender foi um grande exercício de humildade e perserverança.
Somente quem já amou alguém de verdade pode avaliar o que senti.
Até que o Destino sabiamente cortou os laços que nos " uniam".
Foi muito duro abrir os olhos e tirar aquela névoa adolescente que achava ter encontrado seu princípe encantado. Foi muito duro ver que o principe estava mais para sapo do que para qualquer outra coisa.
E tudo isso - hoje reconheço - só teve uma única culpada: eu.
Idealizei um homem que não existia. Joguei fichas em quem não merecia. Amei uma ilusão. E as ilusões, costumam ferir muito,  quando acabam.
Saí muito ferida. Hoje sei que foi exclusivamente culpa minha. Se eu tivesse sido um pouquinho mais racional teria visto que aquele "relacionamento" era uma grande farsa.
Foi necessário, no entanto, passar por tudo que passei. E da forma mais cruel possível.
Enquanto isso, a outra extremidade dava às costas e partia para uma nova conquista.
Ainda fiquei - alguns meses- em estado de estupefação. Procurava entender o inexplicável.
E eis que algo aconteceu.... D´us presenteou a minha vida.
E a partir deste bonito presente constato que o melhor estava por vir.
Quanto ao outro, ficou no passado. E lá pretendo deixá-lo para sempre.
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Olhar Urbano: Batom - Teresa Santos

Se aproximou de mim. Meio tímida, meio sem pudor.
Cabelo preto, cortado em formato de tigela, lembrava uma indiazinha. Os olhos pareciam duas grandes jabuticabas.
Quando me dei conta estava em frente a mim e exibia lábios pintados de um rosa escuro.
Perdeu a vergonha e disse:
- Oi!
Respondi:
- Oi!
E ela, então, perguntou:
- Você gostou do meu batom?
E eu, que fingia não ver, respondi:
- Nossa! Você não acha que é muito pequena para estar de boquinha pintada e blush no rosto?
E ela mais do que depressa retrucou:
- Ah! É para combinar com o meu esmalte. E me mostrou mãozinhas gordinhas e dedinhos tintos de rosa.
Perguntei quantos anos tinha e qual era o seu nome.
- Tenho seis anos e me chamo Isabella. E enfatizou: Isabella com dois eles.
E continuou a matraquear:
- Sabe? Quando eu crescer vou ser modelo e vou cuidar da minha mãe.
Olhou em direção à mãe (que eu acreditava ser a avó) e enfatizou:
- Não é mamãe?
E a mãe respondeu:
- É, filhinha.
E neste instante o ônibus que esperavam chegou.
Isabella então fez menção de subir e voltou.
Me deu um beijo e deixou o batom comigo. 
Voltou ao ônibus e quando estava dentro do coletivo gritou:
- Guarda, viu? Um dia você vai ouvir falar de mim.
Olhei e fiquei surpresa com aquela frase, dita por uma garotinha de apenas seis anos.
Guardei aquele mimo e pensei comigo:
- Será?
E lhe dirigi o melhor de meus pensamentos.
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Olhar Felino - Teresa Santos

E de repente aquele olhar, visto há tantos anos, estancou na minha memória.
Felinos. Verdes. Atravessaram os meus castanhos em uma esquina qualquer no interior de um shopping center.
Eram sagazes, maliciosos. Os poucos segundos - que nos olhamos de chofre - foram suficientes para eu sentir um frio na coluna.
Cabelos negros, revoltos, à altura dos ombros e aqueles dois faróis istigando o que eu pensava.
Naquele momento me senti uma gazela acuada que foge quando o predador se aproxima.
Quem seria ele? Nunca soube.
No entanto, aquels olhos me rondam quando estou distraída e novamente um calafrio percorre meu corpo.
 
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

terça-feira, 6 de março de 2012

Olhar Urbano - Saudade, Teresa Santos

Ando particularmente saudosa.
Talvez devido à idade. Depois dos 60 a velhice me ronda, embora eu não a tema nenhum pouco. Muito pelo contrário.
No entanto, percebo que estou mais introspectiva e que a alegria de sempre começa a ser menos constante.
Nunca tive os famosos traumas à chegada dos 30, 40, 50 anos.
Mas estes 60 anos mexem, de certa forma, comigo.
A saudade que hoje sinto está particularmente ligada à infância. A melhor época de minha  vida.
Saudade de um tempo em que a minha única obrigação era estudar e tirar notas boas.
Saudade das brincadeiras infantis e que – infelizmente – hoje as crianças desconhecem.
Saudade de subir na goiabeira, que teve de ser podada por causa de um vizinho carrancudo. Lembro-me que chorei muito no dia em que ela veio abaixo. Mas com o tempo voltou a ter belas folhagens, embora frutos bem poucos.
Saudade da amoreira onde eu me escondia para deixar os entes queridos à minha procura.
Saudade dos banhos de chuva,  apesar dos protestos de minha mãe. Gostava (e até hoje gosto) de sentir aqueles grandes pingos caindo  sobre mim. Meu pai os chamava de “quatro centões” referindo-se a uma antiga moeda.
Saudade dos folguedos... amarelinha, passa-anel, peteca, tamborete, bolinhas de gude,lenço atrás,cabra cega, corrida de saco.
Saudade de andar de bicicleta e ter aquela sensação da primeira vez que andei sozinha sem o apoio de ninguém. Saudade daquele vento no rosto em uma tarde de domingo onde o sol tímido desaparecia dando lugar à noite. Lembro-me direitinho daquele momento. Tinha sido contagiada por uma grande alegria.  Agora também sabia andar de bicicleta.
Depois vieram os patins de quatro rodinhas. Eram emprestados por uma vizinha que residia em frente à minha casa. Quantos tombos eu levei. Quantas vezes os joelhos eu ralei. Mas também aprendi a me equilibrar de tal forma, que sabia andar melhor do que a própria dona.
Saudade de descer a Rua Tonelero, com o meu irmão, em um carrinho de rolimã e que foi feito por ele e meu pai. Parecíamos dois doidos subindo e descendo com aquele carrinho pintado de verde cor preferida de minha mãe e do meu irmão Palmeirense quase fanático.
Saudade de comer doces da venda do “Seu Germano” um simpático italiano que marcava em um caderninho as guloseimas por mim compradas e que eram pagas no final do mês pelo meu avô paterno.
Adorava saborear pé de moleque, paçoca, geleia de mocotó, chupeta com sabor de groselha, machadinha , puxa-puxa que certa vez arrancou um dente de leite meu.
Saudade de Nha Benta, o famoso DanTop que comíamos na Kopenhagen, minha mãe e meu irmão depois de irmos ao dentista.
Ela dizia que ia doer e que se não fizéssemos escândalo nos compraria Nha Benta.
Hoje vejo a incoerência e acho graça. Saíamos de um dentista para saborearmos um doce. Mas mesmo assim, minha mãe sabia das coisas. Nunca tivemos medo de dentista, de injeções, de tomar alguma medicação como o detestável óleo de figado de bacalhau. Minha mãe sempre foi sincera conosco. Não colocava panos quentes. Sim...ia doer. Sim...ia machucar um pouquinho... E nós crescemos sem ter praticamente medo de nada
Outras saudades se acumulam em meus pensamentos.
Dentre elas uma em especial: a saudade do odor da boneca novinha saída da caixa em uma manhã de Natal. Até hoje consigo sentir aquele cheirinho e que não é igual ao das bonecas de agora.
Saudade da alegria de ver o ovo de Páscoa debaixo da cama dentro de um grande ovo de madeira, coberto com um tecido cheio de coelhinhos. Ovo de madeira que meu avô paterno habilmente nos fez.
Saudade...saudade...saudade...
Quem me dera eu poder voltar no tempo! Parar o tempo.
Mas sei que isso é impossível . O tempo não para, já cantava Cazuza.
E então a saudade fica retida na memória e quando me sinto um tanto quanto intranquila, resgato aquelas imagens. Como faço agora
 
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Olhar Urbano - O homem-cavalo, Teresa Santos


A primeira vez que percebi a loucura, ela vinha sob a forma de um homem-cavalo.
Tinha nove anos quando deparei com aquela figura estranha e assustadora.
Se vestia como se fosse um peão.
Sempre de camisa xadrez, calça rancheiro (a atual calça "jean"), um chapéu e botas com esporas douradas e sempre reluzentes. Nunca o vi sujo, mal penteado ou a barba por fazer. Era um homem bonito e alto.
O que mais me chamava atenção era o rabo de cavalo de crina amarrado na cintura e de um cavalinho de pau, que ele montava.
O seu andar não era normal. Usava uma espécie de ferradura na sola do sapato que emitia aquele som característico de um trotar.
Gostava de "andar" pela Rua Monteiro de Melo, no bairro da Lapa (em São Paulo) e era alvo de risadas e brincadeiras das pessoas.
Detestava quando alguém tocava em seu rabo de cavalo. Virava a cabeça e relinchava como doido.
Uns diziam que ele fazia tipo. Outros tantos que era um lunático que gostava de atazanar.
Com o tempo me acostumei com aquela figura e um dia perguntei ao meu avô paterno quem era aquele homem que eu chamava de "homem cavalo".
Meu avô, então, me contou o que sabia a respeito.
Diziam que ele era o quinto e último filho de uma familia de fazendeiros abastados de Campinas.
E que desde pequeno manifestava uma tendência esquisita de não falar e só soltar sons estranhos como se cavalo fosse.
Os pais o levaram a tudo quanto foi canto para resolver aquele problema. Quando a medicina não deu um diagnóstico, partiram para o mundo da espiritualidade. Foram praticamente em todos os segmentos religiosos. E também nada tiveram sucesso. Cada segmento dizia uma coisa.
Enquanto isso ele crescia... .
Até que os pais resolveram deixá-lo à própria sorte e vivenciar sua loucura, que era de querer ser cavalo de duas patas.
De toda esta bizarrice o que mais me deixava (e até hoje me deixa) curiosa era de nunca ter falado. Só emitia sons.
Entendia o que falávamos, mas não conseguia se expressar.
E nós, por conseguinte, não conseguíamos decifrar seus relinchos.
Soube, há pouco tempo, que faleceu em uma casa de repouso destinada às pessoas com problemas mentais.
Foi enterrado com as roupas que gostou de usar. Inclusive com o seu rabo de cavalo.
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A dor da perda (em solidariedade ao amigo virtual José Ruy Gandra) - Teresa Santos

Não conheço pessoalmente José Ruy Gandra. Pretendo, um dia, ter o prazer de apertar a sua mão.
Ele é um amigo virtual com o qual simpatizo por termos gostos semelhantes.
Todas as vezes, que na página dele visito, saio com alguma mensagem compartilhada ou uma imagem salva.
O que conheço de José Ruy é o que ele posta ali.  Jornalista, escritor (autor de Coração de Pai). Compartilha conosco o que ele gosta e/ou acha que gostamos. E José Ruy acerta. Sempre. Em cheio.
Na segunda-feira, 30 de janeiro de 2012, ao dar uma passada de olhos na página do portal Terra, uma notícia me deixou estupefata.
Paulo Gandra - o Paulinho, carinhosamente assim chamado pelos seus amigos e parentes - havia falecido na Inglaterra.
Acabara de fazer um clip para a cantora Malu Magalhães em Sampa e estava na terra da rainha para filmar uma campanha para TV e Internet para um novo jogo da EA Sports. Tinha 28 anos e era casado. Deixou esposa e um filhinho de meses.
Uma isquemia cardíaca o matou enquanto dormia em um quarto de hotel .
A matéria enfatizava que ele havia começado sua trajetória profissional aos 17 anos, quando se mudou para Londres e passou a dirigir vídeos independentes sobre o dia a dia dos britânicos. De volta ao Brasil, trabalhou durante um ano como RTV e editor na AlmapBBDO. Em seguida, iniciou seu trabalho como diretor quando se tornou sócio da Gandaia Filmes, durante dois anos. Também dirigiu filmes nas produtoras Cinemacentro e Dínamo e entrado para o time de diretores da Hungry Man em 2009.
Leio aquela notícia e não acredito. Há alguns dias José Ruy havia colocado o clip que o filho havia feito para promover o novo trabalho da cantora Malu Magalhães e cheio de orgulho dizia coisas lindas sobre a cria.
Fiquei arrasada. Não queria acreditar. Aquela notícia mexeu demais comigo. E de repente tentei me colocar no lugar de José Ruy.
Mil pensamentos e sentimentos passaram pela minha cabeça. Uma porção de por ques, assaltaram a minha mente.
Por que ele tinha que partir assim tão jovem? Por que ele? Que tinha uma vida produtiva? Por que ele? Que tinha um filhinho para criar e que não terá a presença do pai? Por que ele? Por que? Por que?
Não obtive resposta. Aliás, em horas semelhantes, não existem respostas.
Existe sim, a revolta. A raiva. O ódio. E a imensa dor da perda.
Uma dor que dilacera, uma dor incomensurável. Uma dor que muitas vezes leva à loucura.
A dor da perda de uma pessoa muito querida consiste em um grande baque para mim. Perdas de mãe, de pai, de parentes queridos, de um grande amigo me deixam em um estado lamentável.
E eis que tento me colocar no lugar de José Ruy.
Eu, que não tive filhos, que não sei o que é parir, imagino o que não deva passar na cabeça deste pai e desta mãe.
E por mais que eu queira, não consigo. Não tenho palavras.
Penso na mãe. Como deve estar esta mãe? E uma tristeza se aproxima e fica comigo.
Não sei explicar por que esta morte me deixou tão abalada. Mas me deixou.
E então penso que a perda de um filho é a morte de um pedaço de si mesmo.

Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A palavra e o sentimento - Teresa Santos


Semprei gostei de escrever. Sou uma entusiasta da palavra. Ela tem um significado muito particular para mim.
Lembro-me que tinha 10 anos quando participei de um concurso de redação no curso primário do Grupo Escolar Romeu de Moraes.
O tema era sobre o mar. Ganhei o primeiro lugar. Com o prêmio  vieram uma medalha em prata, um dicionário e um brinquedo.
Algum tempo depois, já no curso ginasial do Colégio Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque, nosso professor de português - Benedito Mota - fez um comentário, para toda a classe, que ele comparava a minha escrita com a de um autor nacional e que a minha modéstia declina o nome.
Fiquei muito contente em ser comparada com alguém daquele quilate. Afinal, tinha tão somente 16 anos e aquele elogio foi algo inesquecível a ponto de lembrá-lo no momento em que escrevo.
A partir daquela data comecei a escrever poesias pueris.
Elas tinha uma direção certa. Um rapaz estrangeiro, de cabelos loiros, olhos claros e de porte alto que comigo estudava.
Comprei um caderno e coloquei nele, durante os anos de 1966 a 1970, todos os meus sentimentos.
E algo curioso aconteceu neste feriado de 25 de janeiro de 2012  em que a minha querida Sampa aniversaria....
Resolvi procurar aquele caderno e depois de um certo tempo o achei.
Está amarelecido, mas a palavras continuam ali...vivas.
Foi então que mudei o tema da crônica de hoje e optei por escrever sobre a palavra e o sentimento que ela suscita. Ou seria vice-versa?
Escolhi uma poesia muito ingênua. Chega a ser bobinha  se considerarmos os padrões atuais.
Foi escrita em julho de 1967 . Parecia que eu adivinhava qual seria o destino dele e meu: uma separação que duraria quarenta anos.
Mas este é um assunto para uma próxima crônica.
 
Ei-la:
 
Amanhã onde estarás?
 
Só penso o dia que a saudade chegar
Não sei o que farei sem você
Sem seu amor, sem seu olhar  
Hoje, tudo é lindo e sonhador
Ao meu lado você está
E amanhã onde estará?
 
Só restará a saudade
Porque um dia irá partir
E não soube que um coração pulsou por ti
 
Ao ler essas palavrinhas me reporto a um tempo onde tudo era tão ingênuo e tão puro.
E percebo que, mesmo passado tanto tempo, conservo uma certa esperança pueril.
E mais uma vez a palavra me acompanha.
 
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Olhar Urbano - Eu te amo, Por Teresa Santos


Ela se despediu ao celular com um Eu te amo, carregadinho de Eu te amo mesmo.
Jovenzinha, uns 19 - 20 anos. Bonita. Feliz.
Desligou o aparelhou e olhou pela janela do ônibus.
Lá fora aquela chuvinha chata, que cai em Sampa, em todos os Janeiros.
Sentada no banco de trás eu a observava e pensava comigo:
- Como é gostoso ouvir: Eu te amo. E como é delicioso dizer: Eu te amo.
Três simples palavrinhas e que fazem um bem enorme ao coração da gente.
Os poucos Eu te amo que recebi, na minha vida, valeram a pena. E bate uma saudade. De um tempo fantástico e que ficou no passado.
Espero que esta moça possa dizer e receber  muitas e muitas vezes Eu te amo.
Porque quando o amor acaba o significado pode ser totalmente inverso.