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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dois maestros se encontram - Zuenir Ventura

No sábado passado, o Teatro Municipal do Rio viveu momentos inéditos. Pela primeira vez, uma plateia de cerca de 2 mil pessoas aplaudiu, e com entusiasmo, uma escola de samba paulista e cantou em coro “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa. Também aplaudiu um cirurgião que só opera, não canta e nem toca. Extasiou-se com a voz do tenor Jean William, um jovem de 25 anos oriundo da periferia de São Paulo. E, sobretudo, se emocionou vendo o maestro João Carlos Martins segurando a batuta e regendo com desembaraço, um mês e meio após uma cirurgia que lhe devolveu os movimentos do braço e da mão esquerda, cujos dedos enrijecidos não se abriam. Há oito anos, quando os médicos lhe disseram que nunca mais poderia tocar piano (e até isso ele fez nessa noite) profissionalmente, por causa do golpe que recebeu na cabeça num assalto na Bulgária, ele decidiu se dedicar à regência.

Seis meses depois, já estava estreando na função, justamente no Rio, na sede do Centro Cultural Banco do Brasil. Ultimamente, porém, uma atonia muscular acometeu seu braço e mão, paralisando-os e fazendo necessária a recente e tão bem-sucedida operação. Agora, ele interrompia o concerto para lembrar isso e, chegando às lágrimas, homenageava o autor da façanha, o neurocirurgião Paulo Niemeyer, chamado pelo maestro de gênio. Presente ao espetáculo, o médico recebeu do público demoradas palmas.

O programa começou com Vivaldi, passou por Bach, autor preferido do maestro, e chegou a Villa-Lobos, acompanhado por percussionistas da Vai-Vai, cujo enredo, vitorioso do carnaval de 2011, foi “Venceu a música”, sobre a capacidade de superação do maestro. A partir daí o público delirou, principalmente quando veio a surpresa prometida: o Hino Nacional tocado em ritmo de samba, misturando instrumentos clássicos de sua Filarmônica Bachiana com os surdos, cuíca, pandeiro e tamborins da bateria da escola. Emocionante. O puristas podem não ter gostado, embora esse mesmo espetáculo já tenha sido aplaudido em importantes casas de várias cidades do mundo, inclusive no Carnegie Hall. De qualquer maneira, missão cumprida para quem já disse que seu objetivo é “chegar ao coração das pessoas”.

Mais tarde, num jantar na casa de Niemeyer, médico e paciente recordavam o procedimento, que consistiu na abertura de dois orifícios no cérebro, por onde foram introduzidos eletrodos que restituíram os movimentos perdidos. A operação, que durou mais de nove horas, teve que ser realizada com anestesia local, com o paciente acordado, para que o cirurgião fosse informado das reações.

Uma das maiores alegrias profissionais de Paulo Niemeyer foi quando, ao final, ordenou: “Agora rege... agora toca piano.” E foi obedecido, com uma batuta e um piano imaginários. Era um pequeno milagre realizado pelo maestro da neurocirurgia no maestro da música.


Fonte: O Globo

domingo, 1 de abril de 2012

O clube dos gênios mortos - Zuenir Ventura

Heleno de Freitas, Raul Seixas e Chico Anysio. O primeiro no futebol, o segundo na música e o terceiro no humor. Os dois primeiros foram tidos como loucos, o terceiro, como normal, o que dificulta a caracterização dos tipos a que chamamos de gênios. Podem ser esquisitos ou malucos, mas podem ser também gente como a gente, aparentemente. Em menos de 15 dias estive em contato com os três: dois na tela grande — "Heleno", de José Henrique Fonseca; "O início, o fim e o meio", de Walter Carvalho — e Chico em todas as TVs, jornais e revistas do país.

Não vi Heleno jogar, só ouvi (sou da época em que se ouvia, mais do que se via futebol), mas ele foi meu ídolo, mesmo sendo botafoguense incurável, tanto quanto a doença que o matou. Raul também só conheci de ouvido. Embora eu tivesse lido muito sobre eles, os filmes me foram indispensáveis para a compreensão desses trágicos personagens. Não concordo com os que acham que Heleno foi o precursor de bad-boys ou rebeldes sem causa como Edmundo. Há pelo menos uma diferença: mesmo bebendo e cheirando éter, Heleno, o angustiado perfeccionista, só fez mal a si mesmo. Sem sífilis e com barba e cabelos grandes, ele estaria mais para contestadores como Sócrates e como Afonsinho, outro botafoguense maltratado pelo clube de Dapieve e Sérgio Augusto.


Em relação a Raul, o documentário de Walter, que é também o extraordinário fotógrafo de "Heleno", desfaz o mito que atribui sua genialidade às drogas (impressionante a revelação de Paulo Coelho de que ele, o mago, foi quem iniciou o parceiro no vício). O compositor foi genial apesar delas, que, junto com o alcoolismo e a pancreatite, só serviram para abreviar sua vida. Heleno e Raul pertenceriam à categoria dos "iracundos", dos seres radicalmente inconformados, na qual o antropólogo Darcy Ribeiro se incluía e incluía Glauber Rocha.


De Chico Anysio também não fui próximo, a não ser por meio de seu irmão Zelito, meu amigo. Graças a isso, tive o privilégio de passar alguns fins de semana no sítio da família e, em uma dessas vezes, pude observar que o inacreditável criador de mais de 200 tipos (Fernando Pessoa criou 68 e quatro heterônimos) não correspondia à expectativa de que profissional do riso tem que fazer graça o tempo todo. Não ri uma vez sequer com ele, só com o irmão cineasta, que, esse sim, parecia o humorista da família.


O que se pode concluir desses exemplos é que não há receita para a matéria-prima com que são feitos os gênios. Trata-se de um enigma. O que há de comum é o fato de que cada um é uma matriz, um padrão original, uma fôrma que não consegue ser replicada. Em outras palavras, eles são aqueles raros exemplares que vieram ao mundo para serem fundadores de novos modos de proceder em qualquer ramo de atividade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Portugal à venda - Zuenir Ventura

Se eu pudesse comprava com certeza uma casa portuguesa, com quatro paredes caiadas e um cheirinho de alecrim. A hora é essa. Segundo a influente revista “Visão”, o país está à venda. O estado, os bancos, as empresas, as famílias, todos estão precisando de dinheiro. Daí a moda dos leilões, que se multiplicam como “uma das formas que os portugueses encontraram para suprir as suas necessidades imediatas”. Para pagar dívidas, leiloa-se tudo: “Desde objetos pessoais ao recheio da casa, entregando os apartamentos aos bancos por não cumprimento dos empréstimos.” Mais de 140 mil famílias encontram-se com as prestações da habitação em atraso. No terceiro trimestre de 2011, cerca de 600 mil pessoas não conseguiram saldar o que deviam (é mais do que a população da cidade de Lisboa). Também as empresas estão com as suas contas atrasadas: pelo menos 6% do crédito concedido a elas, ou 7 milhões de euros, não foram pagos.


Quanto ao estado, promove a liquidação de seu patrimônio para atender às drásticas medidas de austeridade impostas pela chamada Troika (Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu), que é quem manda hoje na economia dos países do euro. Portugal já vendeu no correr do martelo 80 mil imóveis e dez mil carros, sem falar nos artigos apreendidos em portos e aeroportos (obras de arte, equipamentos eletrônicos, máquinas, sofás e até carrinhos de bebês). Mas precisa arrecadar mais, pelo menos 5 bilhões de euros, e para isso terá que privatizar suas maiores estatais, nas quais algumas empresas brasileiras estão de olho. A Eletrobrás, por exemplo, se interessa pela EDP (Energias de Portugal) e a Andrade Gutierrez já declarou a intenção de participar ativamente desse rico processo de privatização.


Estranhamente, não aparece nenhum candidato brasileiro na lista dos quatro pretendentes da TAP que “Visão” publica: British Airways/Ibéria, Qatar Airways, TAAG (angolana) e Lufthansa. No entanto, a julgar pelo que pude apurar em minha última viagem a Lisboa, a preferência da simpática companhia aérea é por uma congênere brasileira. O ex-presidente Lula teria se oferecido até para tentar atrair para o negócio uma delas, a TAM. Mas pelo visto a mediação fracassou.


Enquanto isso, os portugueses continuam fugindo da crise e buscando o Brasil. Calcula-se que nos últimos cinco anos os vistos de trabalho aumentaram quase 70%, concedidos na maioria a jovens profissionalmente qualificados. Com 20% de desemprego lá e com a expansão da economia
aqui — boom da construção civil, perspectivas do petróleo, obras para Copa do Mundo e Olimpíadas — o Brasil virou um paraíso, por exemplo, para engenheiros, arquitetos e construtores. Essa onda migratória faz lembrar o velho “Fado Tropical”, de Chico Buarque. Com tantos portugueses se mudando para cá, o Brasil, quem sabe, “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.
Fonte: Jornal O Globo

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

No meu tempo - Zuenir Ventura

Publicado no jornal O Globo

"O tempora! O mores!" já dizia o velho Cícero em latim, e repetíamos em português no colégio: "Que tempos! Que costumes!" Mas não só os costumes e a moral mudaram com o tempo, o clima e a linguagem também. Na minha época, por exemplo, havia quatro estações por ano, não por dia. O capitão era o último a abandonar o navio, não o primeiro, como o do Costa Concordia. As chuvas de verão eram esperadas, não uma surpresa para as autoridades. Doações que não chegavam às vítimas não eram "desvios de verba", mas roubo de dinheiro, literalmente. Político que garantia só deixar o cargo morto morria de fato, se suicidava, não saía na maior cara de pau para presidir um outrora respeitável partido.
Suposto bandido não carregava adjetivo, só arma, era bandido, e ponto final. Mais de R$200 milhões na conta de um magistrado ou funcionário de um tribunal do Rio de Janeiro era considerado um escândalo, não "movimentação financeira atípica". Na terra do Ancelmo, já se faziam saliências embaixo de edredom, como as que acabam de ocorrer entre um modelo e uma estudante no Big Brother 12, causando tanta polêmica e a eliminação do rapaz. Só que no nosso tempo não seria preciso recorrer à polícia para descobrir se eram "carícias consensuais" ou abuso sexual.
A Europa, até outro dia, servia de modelo e exemplo para o mundo todo; hoje é uma velha dama decadente, a cada dia mais humilhada e rebaixada, carente de socorro até dos países emergentes. Em passado não muito distante, o seio feminino era tido como um espaço perfeito, irretocável, ao mesmo tempo zona erógena e fonte primeira de alimentação do ser humano. A moda de "consertá-lo" por imposições cosméticas transformou-o de produtor de leite materno em depósito de silicone capaz de sujeitá-lo aos riscos de nódulos, inflamações e infecções, como está ocorrendo de maneira absurda no Brasil.
Joelhada e pontapé acima do pescoço davam desclassificação em qualquer esporte. Agora dão consagração. Vejam esse trecho da cobertura da última exibição dos chamados gladiadores do terceiro milênio: "O golpe (aquele chute "cinematográfico" de Edson Barboza no rosto do inglês Terry Etim) levou a torcida à loucura e foi elogiado como um dos mais belos da história do UFC." No meu tempo, "belo" pontapé era o que se dava na bola, não na cara do adversário. Afinal, uma coisa parece não ter mudado: hoje, prende-se bicheiro do mesmo jeito que antigamente - para soltar logo depois, como deve acontecer com Anísio Abraão, da Beija-Flor, daqui a pouco, até o carnaval.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O estado do governador - ZUENIR VENTURA

O estado do governador
ZUENIR VENTURA
O Globo - 29/06/2011

É compreensível o abatimento emocional em que se encontra o governador Sergio Cabral devido ao desastre aéreo que causou a morte de alguns amigos, inclusive da namorada de um filho seu. Talvez seja um dos momentos mais delicados de sua vida afetiva e profissional, em que se misturam questões sentimentais de foro íntimo, como crise conjugal, e razões de estado, como as circunstâncias que envolveram o trágico episódio. O trauma sofrido foi tão forte que pode ter tirado dele um pouco do gosto pelo poder e o apetite de governar - o que se espera ser uma indisposição psicológica passageira que não venha a prejudicar o seu importante projeto de pacificação do Rio de Janeiro. Só mesmo o fato de a vida privada de um homem público ser também pública sob vários aspectos autoriza invadir um território que é particular e reservado, mas onde cabem, além de uma sincera solidariedade, críticas a um incidente repleto de erros políticos e inconveniências morais - a começar pela decisão da insensata viagem num avião pedido emprestado a um empresário para uma festa de aniversário de um outro no Sul da Bahia. O detalhe é que ambos mantêm com o governo relações altamente comprometedoras. O primeiro foi doador da campanha eleitoral de Cabral e é copatrocinador de alguns de seus programas, beneficiando-se de incentivos fiscais que chegam a quase R$80 milhões. O segundo é um poderoso empreiteiro que só na gestão peemedebista foi contemplado com contratos de cerca de R$1 bilhão, alguns sem licitação.

Não se entende que não tenha aparecido alguém de bom senso no entorno do governador para desaconselhar a viagem, ou mesmo tentar impedi-la, e nem para, depois, advertir que um vôo de helicóptero Esquilo naquelas condições meteorológicas era quase um suicídio. Por que arriscar a vida num trajeto de 10 minutos que podia ser feito de carro levando um pouco mais de tempo? (uma resposta possível é que em certas camadas da sociedade parece que se perdeu o hábito de usar automóvel, mesmo quando não há pressa). Por último, como se explica que a assessoria do governador tenha distribuído a falsa informação de que ele teria se dirigido ao local para acompanhar as buscas, quando na verdade ele já se encontrava lá na sexta-feira, dia da tragédia - e por pouco não foi uma das vítimas?

Com todo respeito ao seu estado de ânimo e com a torcida pela continuidade de sua política de segurança, não se pode deixar de cobrar respostas a essas perguntas. Ainda que Sergio Cabral não tenha cometido ilícitos tipificados em lei, houve no incidente um grave conflito de interesses público e privado e uma incompatibilidade ética que afetam seriamente a imagem de seu governo.