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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

#Sentimental - Joaquim Ferreira dos Santos

Publicado por O Globo

A partir da bossa nova um inesperado mal se escondia no coração dos homens. Não era o golpe de Estado, o vento encanado ou o bicho do pé. Era a música brega

Cafonas são os beijos que não foram dados e as lágrimas derramadas pela crítica no leito de morte desses cantores outrora chamados bregas e que agora, toda semana um morto, são declarados como joias raras da melhor música brasileira.
Descansem em paz Nelson Ned, Reginaldo Rossi, Wando, Dom, Ravel, Evaldo Braga, Waldick Soriano, Lindomar Castilho e tantos outros no mesmo panteão dos que já se foram, grandes artistas marcados pela dor macambúzia de jamais conhecerem em vida o beijo refrescante do elogio impresso.
Perdoem esta espinhela caída que vira e mexe acomete a alma fúnebre nacional, uma viúva escrota sempre disposta a declarar simpatia culta hoje pelo cantor velhinho de mau gosto que morreu ontem.
Vocês eram pobres, tinham a pele oleosa, o cabelo esticado com meia de nylon e pararam de queimar as pestanas no ginásio. Queriam cantar da vida apenas aquilo que a bandida fornecia de mais sentimental, um roteiro de dor, perfídia, perfume de gardênia, mulheres que iam embora e as súplicas ajoelhadas para que voltassem. Vocês sofriam. Os bacanas não gostam disso.
Os críticos acham que cantor brega com valor é feito bandido bom, só existe depois de morto — e esperaram Nelson Ned morrer, anão coitado apedrejado em vida, para, compungidos, segurar-lhe a alça do caixão. Quando tiveram a certeza de que o corpo começava a esfriar, disseram que ia ali a versão nacional de um Frank Sinatra bonsai.
Eu nunca namorei uma garota em cadeira de rodas, como fez Fernando Mendes, eu nunca tirei mulher da zona, como perpetrou Odair José, mas eu estava lá. Vi. Desde aquele dia de 1958, quando estalaram sob as agulhas das vitrolas nacionais as primeiras bolhas do compacto de João Gilberto com “Chega de saudade”, criou-se um novo país de belas sonoridades — ao mesmo tempo surgiu a maldição de que do outro lado do ringue ficariam os párias do mau gosto. Passamos a viver num apartheid musical. Quem não cantasse baixinho estava fedido. Quem se deixasse iluminar pela luz difusa do abajur lilás era um perdedor.
O país do santo barroco baiano, sempre orgulhoso do turbante de frutas de Carmen Miranda e da cabeleira de príncipe na cabeça do mestre-sala, deu meia volta no sapato bicolor com que ia à pândega na gafieira. Pisou no freio do exagero estético. A partir da bossa nova surgia um inesperado mal que se escondia no coração dos homens. Ele devia ser evitado a todo custo, à base de enteroviofórmio, acordes dissonantes, amor, sorriso e muita flor. O novo mal brasileiro não era o golpe de Estado, o vento encanado ou o bicho do pé. Era a música brega.
Antes havia Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Joel e Gaúcho, Isaurinha Garcia, Custódio Mesquita, todos misturados e saudados no mesmo cordão encarnado da falta de preconceito. Diferentes, mas grandes artistas ouvidos por ricos e pobres, analfabetos e espertos. Mario Reis, o dândi do Copacabana Palace, ia até a Lapa gravar em primeira mão os sambas do malandro Sinhô. Antônio Maria enchia os cornos de uísque e mandava Nora Ney repetir “Ninguém me ama, ninguém me quer”. Alguns iam de dó de peito, outros se acompanhavam de zabumbas. A batuta de Radamés Gnatalli não perguntava nada. Regia a todos no democrático palco-estúdio da Rádio Nacional.
Não havia bem e mal, brega e chique, na MPB. Tanto fazia a comadre Sebastiana do Jackson do Pandeiro quanto a Nega Luzia do Wilson Batista ou a normalista do Nelson Gonçalves. Todas comíveis, lindas, musas cortejadas nos salões. Foram-se. Como cantava Nelson Ned, “tudo passa, tudo passará”.
Talvez por isso, neste momento em que a música popular pulsa tão broxa, todo mundo querendo se passar por cool, talvez por isso pinguem essas lágrimas da crítica pelos artistas-mortos que ela maltratou em vida.
Os tais bregas botavam os bofes para fora, como Núbia Lafayette, rasgavam os paletós no auge da súplica, como Orlando Dias, saíam declamando poemas como Silvinho. As fãs de Wando, agradecidas por terem suas vidas colocadas com tanta emoção em cena, jogavam sobre o palco o testemunho efusivo da vibração de suas calcinhas. Foi no tempo do crime passional, do coração fora do peito, do pulso sangrando, da camisola do dia tão transparentemente macia, da porta batendo para nunca mais e do chifre espetando a alma nacional.
Paulo Sérgio, Anísio Silva, Evaldo Braga, Luis Ayrão, Claudio Fontana, Altemar Dutra e Amado Batista. Nesses aplicativos modernos, onde as moças de hoje avaliam os rapazes começando pelas suas dimensões penianas, seria colocada ao lado do nome desses cantores bregas a hashtag #sentimental. Seria uma avaliação positiva. O tamanho do documento era outro


sábado, 20 de julho de 2013

Esquerda ou direita? - Antonio Prata


A esquerda acha que o homem é bom, mas vai mal – e tende a piorar. A direita acredita que o homem é mau, mas vai bem – e tende a melhorar.
A esquerda acusa a direita de fazer as coisas sem refletir. A direita acusa a esquerda de discutir, discutir, marcar para discutir mais amanhã, ou discutir se vai discutir mais amanhã e não fazer nada. (Piada de direita: camelo é um cavalo criado por um comitê).

Temos trânsito na cidade. O que faz a direita? Chama engenheiros e constrói mais pontes. Resolve agora? Sim, diz a direita. Mas só piora o problema, depois, diz a esquerda. A direita não está preocupada com o depois: depois é de esquerda, agora é de direita.
Temos trânsito na cidade. O que faz a esquerda? Chama urbanistas para repensar a relação do transporte com a cidade. Quer dizer então que a Marginal vai continuar parada ano que vem?, cutuca a direita. Sim, diz a esquerda, mas outra cidade é possível mais pra frente. A direita ri. “Outra” é de esquerda. “Isso” é de direita.

Direita e esquerda são uma maneira de encarar a vida e, portanto, a morte. Diante do envelhecimento, os dois lados se dividem exatamente como no urbanismo. Faça plásticas (pontes), diz a direita. Faça análise, (discuta o problema de fundo) diz a esquerda. (“filosofar é aprender a morrer”, Cícero). Você tem que se sentir bem com o corpo que tem, diz a esquerda. Sim, é exatamente por isso que eu faço plásticas, rebate a direita. Neurótica! — grita a esquerda. Ressentida! — grita a direita.

A direita vai à academia, porque é pragmática e quer a bunda dura. A esquerda vai à yoga, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado. (Processo é de esquerda, resultado, de direita).

Um estudo de direita talvez prove que as pessoas de direita, preocupadas com a bunda, fazem mais exercícios físicos do que as de esquerda e, por isso, acabam sendo mais saudáveis, o que é quase como uma aplicação esportiva do muito citado mote de Mendeville, de que os vícios privados geram benefícios públicos — se encararmos vício privado como o enrijecimento da bunda (bunda é de direita) e benefício público como a melhora de todo o sistema cardio-vascular. (Sistema cardio-vascular é de esquerda).
Um estudo de esquerda talvez prove que o povo de esquerda, mais preocupado com o processo do que com os resultados, acaba com a bunda mais dura, pois o processo holístico da yoga (processo, holístico e yoga são de extrema esquerda) acaba beneficiando os glúteos mais do que a musculação. (Yoga já é de direita, diz alguém que lê o texto sobre meus ombros, provando que o provérbio correto é “pau que nasce torno, sempre se endireita”).

Dieta da proteína: direita. Dieta por pontos: esquerda. Operação de estômago: fascismo. Macrobiótica: stalinismo. Vegetarianismo: loucura. (Foucault escreveria alguma coisa bem interessante sobre os Vigilantes do Peso).

Evidente que, dependendo da época, as coisas mudam de lugar. Maio de 68: professores universitários eram de direita e mídia de esquerda. (“O mundo só será um lugar justo quando o último sociólogo for enforcado com as tripas do último padre”, escreveram num muro de Paris). Hoje a universidade é de esquerda e a mídia, de direita.

As coisas também mudam, dependendo da perspectiva: ao lado de um suco de laranja, Guaraná é de direita. Ao lado de uma Coca-Cola, Guaraná é de esquerda. Da mesma forma, ao lado de um suco de graviola, pitanga ou umbu (extrema-esquerda), o de laranja vira um generalzinho. (Anauê juice fruit: 100% integralista).

Leão, urso, lobo: direita. Pinguim, grilo, avestruz: esquerda. Formiga: fascismo. Abelha: stalinismo. Cachorro: social democrata. Gato: anarquista. Rosa: direita. Maria sem-vergonha: esquerda. Grama: nacional socialismo. Piscina: direita. Cachoeira: esquerda. (Quanto ao mar, tenho minhas dúvidas, embora seja claro que o Atlântico e o Pacífico estejam, politicamente, dos lados opostos aos que se encontram no mapa). Lápis: esquerda. Caneta: direita. Axilas, cotovelo, calcanhar: esquerda. Bíceps, abdomem, panturrilha: direita. Nariz: esquerda. Olhos: direita. (Olfato é sensação, animal, memória. Visão é objetividade, praticidade, razão).

Liquidificador é de direita. (Maquiavel: dividir para dominar). Batedeira é de esquerda. (Gilberto Freyre: o apogeu da mistura, do contato, quase que a massagem dos ingredientes). Mixer é um caudilho de direita. Espremedor de alho é um caudilho de esquerda. Colher de pau, esquerda. Teflon, direita. Mostarda é de esquerda, catchupe é de direita — e pela maionese nenhum dos lados quer se responsabilizar. Mal passado é de esquerda, bem passado é de direita. Contra-filé é de esquerda, filé mignon é de direita. Peito é de direita, coxa é de esquerda. Arroz é de direita, feijão é de esquerda. Tupperware, extrema direita. Cumbuca, extrema esquerda. Congelar é de direita, salgar é de esquerda. No churrasco, sal grosso é de esquerda, sal moura é de direita e jogar cerveja na picanha é crime inafiançável.

Graal é de direita, Fazendinha é de esquerda. Cheetos é de direita, Baconzeetos é de esquerda e Doritos é tucano. Ploc e Ping-Pong são de esquerda, Bubaloo é de direita.
No sexo: broxada é de esquerda. Ejaculação precoce é de direita. Cunilingus: esquerda. Fellatio: direita. A mulher de quatro: direita. Mulher por cima: esquerda. Homem é de direita, mulher é de esquerda. (mas talvez essa seja a visão de uma mulher — de esquerda).

Vogais são de esquerda, consoantes, de direita. Se A, E e O estiverem tomando uma cerveja e X, K e Y chegarem no bar, pode até sair briga. Apóstrofe ésse anda sempre com Friedman, Fukuyama e Freakonomics embaixo do braço. (A trema e a crase acham todo esse debate uma pobreza e são a favor do restabelecimento da monarquia).
“Eu gostava mais no começo” é de esquerda. “Não vejo a hora de sair o próximo” é de direita.

Dia é de direita, noite é de esquerda. Sol é de direita, lua é de esquerda. Planície é de direita, montanha é de esquerda. Terra é de direita, água é de esquerda. Círculo é de esquerda, quadrado é de direita. “É genético” é de direita. “É comportamental” é de esquerda. Aproveita é de esquerda. Joga fora e compra outro, de direita. Onda é de direita, partícula é de esquerda. Molécula é de esquerda, átomo é de direita. Elétron é de esquerda, próton é de direita e a assessoria do neutron informou que ele prefere ausentar-se da discussão.

To be continued (para os de direita)
Under construction (para os de esquerda)

Antonio Prata em seu Facebook

sábado, 29 de junho de 2013

Gays e heterossexuais incuráveis - Drauzio Varella

Está coberta de razão a sabedoria popular ao dizer que a homossexualidade é mais velha do que andar a pé

Apesar dos anos vividos, ainda me surpreendo com a estupidez humana.

Os crentes dizem que Deus houve por bem limitar-nos a inteligência, para impedir que bisbilhotássemos seus domínios. Se assim agiu, pena não lhe ter ocorrido impor limites para a burrice dos seres que criou à sua imagem e semelhança.

Um grupo de deputados reunidos na Comissão de Direitos Humanos, presidida por um evangélico sem nenhuma aparência de homem fervoroso, aprovou o projeto conhecido como "cura gay", que assegura aos psicólogos o direito de aplicar métodos de tratamento destinados a transformar homo em heterossexuais, e de apregoar aos incautos a cura da homossexualidade, práticas condenadas pelo Conselho Federal de Psicologia e por todas as pessoas com um mínimo de discernimento.

Em todos os povos conhecidos, uma parcela de indivíduos em alguma fase da vida experimentou orgasmo por meio da estimulação dos genitais realizada por uma pessoa do mesmo sexo.

A incidência da homossexualidade varia de acordo com o grupo social. Um estudo clássico dos anos 1950 mostrou que em cerca de 60% das populações pesquisadas o comportamento homossexual é aceito sem restrições. Na África, entre os povos Siwan, e no sudoeste do Pacífico, entre os melanésios, virtualmente todos os homens praticaram sexo com outros homens em algum estágio da vida.

As 40% restantes vivem em países nos quais a homossexualidade é objeto de tabu social. As nações industrializadas se enquadram nesse grupo minoritário.

Embora os dados nem sempre confirmem com exatidão, a homossexualidade masculina parece ser duas a três vezes mais prevalente do que a feminina, em todas as sociedades até hoje avaliadas.

A maioria esmagadora dos indivíduos que experimentam orgasmos com pessoas do mesmo sexo são bissexuais. No Ocidente, homossexualidade pura, caracterizada pela ausência de práticas sexuais com o sexo oposto durante a vida inteira, ocorre em apenas 1% da população.

Comportamento homossexual tem sido descrito em répteis, pássaros e mamíferos, animais que na evolução divergiram há mais de 100 milhões de anos.Uma parte dos machos e fêmeas de todas as espécies de aves estudadas têm relações sexuais com indivíduos do mesmo sexo. Em muitas ocasiões, essas práticas terminam em orgasmo de apenas um ou dois dos parceiros.

Nos mamíferos, a maioria das relações homossexuais entre as fêmeas acontece quando uma parceira monta sobre a outra, comportamento já documentado em pelo menos 70 espécies: ratos, hamsters, coelhos, martas, gado, carneiros, cavalos, antílopes, porcos, macacos, chimpanzés, bonobos, leões etc.

Há mais de um século e meio, Charles Darwin nos ensinou que uma caraterística presente em diversas espécies distintas indica que foi herdada de um ancestral comum, portador do mesmo traço. Podemos garantir que o ancestral que deu origem aos vertebrados tinha dois globos oculares, caraterística herdada por todos os animais com esqueleto.

O paralelismo é óbvio, prezadíssimo leitor: se o comportamento homossexual está documentado em animais tão distintos quanto répteis, aves e mamíferos, é porque a homossexualidade é mais antiga do que a humanidade.

Certamente, já existiam hominídeos homo e bissexuais 5 a 7 milhões de anos atrás, quando nossos ancestrais resolveram descer das árvores nas savanas da África. Está coberta de razão a sabedoria popular ao dizer que a homossexualidade é mais velha do que andar a pé.

Sempre houve e haverá mulheres e homens que desejam pessoas do mesmo sexo, porque essa é uma característica inerente à condição humana. Com persistência e determinação, eles podem controlar o comportamento sexual, mas o desejo não. O desejo é uma força da natureza mais íntima de cada um de nós; é água que corre montanha abaixo.

Os fatores genéticos e as interações sociais envolvidas no comportamento sexual são de tal complexidade que só a ignorância crassa é capaz de propor simplificações.

Eu, que sempre coloquei em dúvida a masculinidade daqueles excessivamente preocupados ou ofendidos com a homossexualidade alheia, gostaria de saber em que porta de botequim os nobres deputados ouviram falar que o homossexual é um doente à espera de tratamento psicológico.  

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Domingos - Marla de Queiróz


Domingos, antes de começar a entristecer e, para que isto não aconteça (porque tem sempre alguma coisa meio esquisita nos meus domingos), me dou missões grandiosas. Agora, por exemplo, estava tomando conta da paisagem. No processo, observei se as plantas estavam no lugar adequado para absorver toda esta água celeste de ontem que, para elas, pode ser benta. Cumpridas as tarefas mais importantes, planejo mentalmente como será minha semana: e me visualizo sempre bem. Quando começa a anoitecer e o vento frio desabilita minha vontade de andar por aí, eu fico aqui dentro de mim tomando conta das minhas cobranças emocionais. Porque preciso entender o meu tamanho e meus limites para transcender o que é possível. Cuido também do que é pernicioso: maus pensamentos, desânimo, preguiça, etc., não alimento. Solidão que não é minha e tenta se aninhar aqui, devolvo. Desilusões amorosas que buscam uma mente vazia para perturbar, afasto. Nada como ter cada coisa no seu lugar. Nada como ser a pessoa que quando você olha para dentro está lá. 

Desejo um coração sossegado. 
Amor aos bocados. Alegria contagiante. 
Desejo uma semana inspiradora e boas notícias.

domingo, 5 de maio de 2013

O valor dos pais. Um dos mais bonitos textos sobre educação familiar

Um jovem de nível acadêmico excelente, candidatou-se à posição de gerente de uma grande empresa.
Passou a primeira entrevista e o diretor fez a última, tomando a última decisão.
O diretor descobriu, através do currículo, que as suas realizações acadêmicas eram excelentes em todo o percurso, desde o secundário até à pesquisa da pós-graduação e não havia um ano em que não tivesse pontuado com nota máxima.
O diretor perguntou, "Tiveste alguma bolsa na escola?"
O jovem respondeu, "nenhuma".
O diretor perguntou, "Foi seu pai quem pagou as suas mensalidades ?" o jovem respondeu, "O meu pai faleceu quando eu tinha apenas um ano, foi a minha mãe quem pagou as minhas mensalidades."
O diretor perguntou, "Onde trabalha a sua mãe?" - e o jovem respondeu: "A minha mãe lava roupa."
O diretor pediu que o jovem lhe mostrasse as suas mãos. O jovem mostrou um par de mãos macias e perfeitas.
O diretor perguntou, "Alguma vez ajudou sua mãe lavar as roupas?" - o jovem respondeu: "Nunca, a minha mãe sempre quis que eu estudasse e lesse mais livros. Além disso, a minha mãe lava a roupa mais depressa do que eu."
O diretor disse, "Eu tenho um pedido. Hoje, quando voltar, vá e limpe as mãos da sua mãe e depois venha ver-me amanhã de manhã."
O jovem sentiu que a hipótese de obter o emprego era alta. Quando chegou em casa, pediu, feliz, à mãe que o deixasse limpar as suas mãos. A mãe achou estranho, estava feliz, mas com um misto de sentimentos e mostrou as suas mãos ao filho.
O jovem limpou lentamente as mãos da mãe. Uma lágrima escorreu-lhe enquanto o fazia. Era a primeira vez que reparava que as mãos da mãe estavam muito enrugadas e havia demasiadas contusões nas suas mãos. Algumas eram tão dolorosas que a mãe se queixava quando limpava com água.
Esta era a primeira vez que o jovem percebia que este par de mãos que lavavam roupa todo o dia tinham-lhe pago as mensalidades. As contusões nas mãos da mãe eram o preço a pagar pela sua graduação, excelência acadêmica e o seu futuro.
Após acabar de limpar as mãos da mãe, o jovem silenciosamente lavou as restantes roupas pela sua mãe.
Nessa noite, mãe e filho falaram por um longo tempo.
Na manhã seguinte, o jovem foi ao gabinete do diretor.
O diretor percebeu as lágrimas nos olhos do jovem e perguntou, "Diz-me, o que fez e que aprendeu ontem em sua casa?"
O jovem respondeu, "Eu limpei as mãos da minha mãe e ainda acabei de lavar as roupas que sobraram."
O diretor pediu, "Por favor, diz-me o que sente?."
O jovem disse "Primeiro, agora sei o que é dar valor. Sem a minha mãe, não haveria um eu com sucesso hoje. Segundo, ao trabalhar e ajudar a minha mãe, só agora percebi a dificuldade e dureza que é ter algo pronto. Em terceiro, agora aprecio a importância e valor de uma relação familiar."
O diretor disse, "Isto é o que eu procuro para um gerente. Eu quero recrutar alguém que saiba apreciar a ajuda dos outros, uma pessoa que conheça o sofrimento dos outros para terem as coisas feitas e uma pessoa que não coloque o dinheiro como o seu único objetivo na vida. Está contratado."
Mais tarde, este jovem trabalhou arduamente e recebeu o respeito dos seus subordinados. Todos os empregados trabalhavam diligentemente e como equipe. O desempenho da empresa melhorou tremendamente.
Uma criança que foi protegida e teve habitualmente tudo o que quis se desenvolverá mentalmente e sempre se colocará em primeiro. Ignorarará os esforços dos seus pais e quando começar a trabalhar, assumirá que todas as pessoas o devem ouvir e quando se tornar gerente, nunca saberá o sofrimento dos seus empregados e sempre culpará os outros. Para este tipo de pessoas, que podem ser boas academicamente, podem ser bem sucedidas por um tempo, mas eventualmente não sentirão a sensação de objetivo atingido. Irão resmungar, estar cheios de ódio e lutar por mais.
Se somos esse tipo de pais, estamos realmente a mostrar amor ou estamos a destruir o nosso filho?
Pode-se deixar seu filho viver numa grande casa, comer boas refeições, aprender piano e ver televisão num grande TV em plasma. Mas quando cortar a grama, por favor, deixe-o experienciar isso. Depois da refeição, deixe-o lavar o seu prato juntamente com os seus irmãos e irmãs. Deixe-o guardar seus brinquedos e arrumar sua própria cama. Isto não é porque não tem dinheiro para contratar uma empregada, mas porque o quer é amar e ensinar como deve de ser. Quer que ele entenda que não interessa o quão ricos os seus pais são, pois um dia ele irá envelhecer, tal como a mãe daquele jovem.
A coisa mais importante que os seus filhos devem entender é a apreciar o esforço e experiência da dificuldade e aprendizagem da habilidade de trabalhar com os outros para fazer as coisas.
Quais são as pessoas que ficaram com mãos enrugadas por mim?
O valor de nossos pais ...
Um dos mais bonitos textos sobre educação familiar que já li. Leitura obrigatória para nós pais e, principalmente, para os filhos.

Desconheço o autor.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A História e o cheiro - Cora Rónai


Tenho algumas perguntas que nunca serão respondidas. Gostaria de saber, por exemplo, qual era o gosto da comida na Idade Média. Posso ler mil descrições, mas nenhuma jamais corresponderá à garfada que me esclareceria essa dúvida. Tenho certeza de que eu detestaria praticamente qualquer prato. Sutileza não era uma marca registrada da época, e usavam-se como temperos ingredientes que hoje são considerados péssimos para a saúde.  Já estive em jantares “medievais” em que cozinheiros criativos tentaram recriar as antigas receitas, mas faltava-lhes metade dos ingredientes.
Toda a espécie de bicho circulava entre as pessoas, de vacas e cavalos a ratos e insetos. Ninguém tomava banho. Havia esgotos a céu aberto. Queimava-se incenso nas igrejas não por motivos sagrados, mas para dar um trato no bodum de tanta gente junta: havia quem acreditasse que o incenso evitava doenças contagiosas.Tenho também muita curiosidade em relação ao cheiro do mundo. Quando passeio por encantadoras cidades medievais da Europa, em que tudo parece cenário de filme de época, nunca me esqueço de que, na época em que foram construídas, as noções de higiene eram muito diferentes das atuais. As ruazinhas estreitas que tanto nos encantam hoje eram imundas.
A Cleópatra de Elizabeth Taylor
Mas se o fedor do passado me interessa, mais ainda me interessa o perfume. Eu adoraria saber como cheirava Cleópatra, e quais eram os perfumes favoritos dos romanos. A resposta a essa questão está (quase) a nosso alcance: basta ir a uma perfumaria que trabalhe com óleos essenciais. Os cheiros extraídos de flores e madeiras continuam basicamente os mesmos — e assim permaneceram durante muitos séculos.
Primeira loja da Guerlain, na Rue de Rivoli, em Paris
O uso de ingredientes sintéticos é bem recente. Remonta a 1889 e foi ideia de Aimé Guerlain, filho do perfumista Pierre-François-Pascal Guerlain. O jovem Guerlain trouxe muitas novidades para a indústria, a começar por especiarias exóticas que, até aquele momento, ninguém no Ocidente considerara como matéria prima para perfumes. Nem todas, porém, funcionavam bem au naturel.
A solução? Criar “clones” daqueles cheiros maravilhosos.
Várias gerações de embalagens de Jicky
Com isso, Aimé Guerlain pode lançar Jicky, historicamente considerado o primeiro perfume moderno — o primeiro querompia com todas as tradições milenares dos cheiros bons. A adição de moléculas sintéticas ao perfumes apresentou à humanidade toda uma paleta de novas fragrâncias: o mundo nunca mais cheirou da mesma maneira.
Jicky existe até hoje e é moderno até hoje. E custa uma fábula, como convém a uma jóia atemporal.
Publicado por Blog da Cora Rónai

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Férias na África ou lições para a vida? - André Caldeira

Publicado por Revista Exame



Agora no final de janeiro tirei férias com minha família, por conta do aniversário de 40 anos da minha mulher. O destino, selecionado no ano passado depois de muitas pesquisas e cotações, foi a África do Sul.
Dias inesquecíveis: convivência 24 horas com minha mulher e nossos 2 filhos, paisagens maravilhosas, correria e cansaço, distância do trabalho, dos e-mails (OK, uma ou outra olhada na caixa de entrada de vez em quando), do I-Phone, da rotina de maneira geral. E algumas passagens que me fizeram pensar muito na perspectiva do dia-a-dia, do trabalho e de nossas vidas.
A primeira tem a ver com a interpretação de nossas intenções e gestos, e acho que isso vale também para a vida profissional, por conta de tantos ruídos e confusões que vejo como a dinâmica central de muitos times e empresas. Emissão e recepção da mensagem, intenção e resultado, causa e consequência.
Estávamos no alto da Table Mountain, um lugar espetacular na Cidade do Cabo, que fica a uns 500 metros de altura, com vista panorâmica da cidade. Em uma das centenas de fotos que tiramos, sentei na mureta, de costas para o precipício, para fazer uma pose para a foto que seria tirada por minha mulher, enquanto o Lucas, meu filho de 11 anos, me olhava. Resolvi brincar que tinha perdido o equilíbrio, e que estava caindo para trás… Depois dos gritos e da bronca da minha mulher em seguida, vejo meu filho sair correndo para um canto, de cabeça abaixada. Vou até ele para me desculpar e vejo que está chorando, muito nervoso.
“Desculpe, filho, papai só estava brincando. Não foi nada… Não é para tanto. Por que você ficou desse jeito?”
“Pai, eu pensei que você estava caindo. Não queria ficar sem você…”
“…” 
(eu, chorando junto, querendo me enforcar de ter feito aquilo, ao mesmo tempo que tomado por um amor tão grande, tão forte, que nem consigo expressar)
Passados alguns dias, fomos para o Kruger Park, para as experiências de safari no meio da selva africana. No primeiro passeio, o motorista nos avisa que haviam localizado um bando de elefantes, e que tínhamos que correr para chegar a tempo. Depois de algumas voltas e retornos, comunicação no rádio e sensação de protagonizar um episódio do Discovery Channel, paramos numa estrada deserta, com o pedido para ficar em silêncio. Alguns minutos de espera, somente os sons da floresta e mais nada. Eis que, a não mais de 5 metros do nosso carro, surge a mãe e dois filhotes, seguidos pelo pai, como que os protegendo. Elefantes enormes, imponentes, majestosos, passando por nós como se fôssemos simples pedras. A África se manifestando para mim por meio daqueles animais, mostrando a vida, a natureza, o planeta. E o mais forte: nosso tamanho no meio disso tudo. Fiquei pensando no quanto nos focamos somente em nossas vidas, em nosso pequeno mundo, em nossa sequência de dias de trabalho e entregáveis no escritório, e esquecemos que somos um pequeno grão de areia em uma engrenagem tão mais grandiosa, que não depende e não espera nossa contribuição para seguir em frente, e que faz isso todos os dias, enquanto estamos debruçados nos relatórios ou no computador. É a vida real e grandiosa que segue enquanto estamos no microscópio, no micro cosmos do capital, do market-share e do Excel, do próximo carro ou trabalho.
Outra passagem foi com o nosso tracker, que é o parceiro do motorista nos safaris, responsável por encontrar pistas e pegadas (tracks) dos animais. Elliot, nosso tracker, tinha 18 anos de experiência e um amor profundo por seu trabalho. Mas o mais impressionante era seu foco absoluto e uma capacidade de ver e ouvir o que nós, homens e mulheres de negócios, escolados e cultos, seres tecnológicos e modernos, não conseguimos sequer perceber. É como se ele estivesse em outra dimensão, com algum tipo de conexão especial incompreensível para nós. Uma história incrível que ele me contou foi a de que os animais herbívoros prestam atenção na direção do vento na savana, pois sempre que comem uma planta, a seguinte tem que ser no sentido contrário ao do vento. A razão? Porque as plantas emitem um sinal químico transmitido para a planta seguinte, uma espécie de SOS enviado com o vento, que faz com que a segunda planta libere componentes químicos, tornando suas folhas amargas. As plantas fazem isso, os animais sabem disso, o tracker me conta sobre isso e, por conta de minha cara de espanto e incredulidade, me olha como seu eu fosse um alienígena ou uma criança de 05 anos de idade… Novamente, tive a sensação de só estar vivendo na ponta do iceberg, de estar vendado e colocar a ponta dos pés em um oceano, achando que se trata de uma pequena poça d’água.
A próxima lição foi em um safari noturno. Estávamos tentando encontrar os leões, que haviam sido vistos por um outro grupo em algum lugar que eu jamais saberei sequer tentar explicar onde era. Depois de algumas horas, achamos os leões, um bando de uns 10, sendo um grande leão macho, duas leoas enormes e uns 8 filhotes. Já era quase de noite, e uma das leoas, gigante e caçadora, começa a rodear o carro. O tracker nos pede silêncio e imobilidade absoluta, dado o perigo. Clara, minha filha de 7 anos, está ao meu lado, e com muito medo. Na fileira da frente no carro, estão minha mulher e meu filho. A leoa para atrás do carro.
“Pai, vamos passar para o banco da frente, junto com a mamãe e o Lucas, pois a leoa está aqui atrás!!”
“Filha, vai você, pois não podemos nos mexer e sou muito grande”.
“Mas se a leoa atacar, ela vai pegar você primeiro?”
“Ela não vai atacar, Clara.”
“Mas se atacar, ela vai pular aqui atrás, né?”
“Filha, passe para a frente, no colo da mamãe!”
“Não, nem pensar. Vou ficar aqui atrás com você.”
“…”
Me senti protegido pela minha pequena leoa, disposta a vencer seu próprio medo e a brigar pelo pai, a não abandonar, a enfrentar o perigo e o eventual ataque (na cabeça dela) comigo. E agradeci pelo amor, pela lealdade, pela entrega. E pensei, de novo, na relevância de nossos gestos e palavras, na importância de defendermos aquilo ou aqueles que acreditamos ou amamos.
Por fim, fiquei profundamente impactado pela barbárie do apartheid, o quão recente tudo isso aconteceu, e pela figura de Nelson Mandela. Mandela é um herói para seu país, um exemplo de homem, de líder, de grandiosidade de propósito. Uma figura que mostrou ao mundo a força da determinação, a tenacidade na briga por uma causa e a importância da disciplina. Quando comparado a um homem santo, ele disse
“Lembre-se que um santo nada mais é do que um pecador que não desistiu”.
Férias na África ou lições para a vida?


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os legados do Império. Ad captandum vulgus, panem et circenses - Dante Mendonça


A pouco menos de 500 dias para o pontapé inicial da Copa do Mundo no Brasil, os imperadores do futebol estalam os chicotes para apressar o andar da carruagem. Fazem vistorias períodicas, chamam autoridades locais ao beija-mão e, para exibição pública de poder, contam até com o apoio da Força Pública para interditar as ruas em seus deslocamentos. Para os próximos 500 dias, fica revogada a soberania nacional. E, no caso de Curitiba, depois do Plano Agache, agora estamos sob a vigência do Plano Blatter.
Entre o real e o imaginário podemos reescrever a história, mostrando os imperadores romanos com o circo do futebol aos seus pés. O imperador Vespasiano, por exemplo. Talvez já preocupado com a Copa do Mundo na Itália, que seria realizada somente 1.855 anos depois (em 1934), no dia 22 de junho de 79 d.C. teria enviado uma carta para seu filho Tito, com os seguintes conselhos:
“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum (Coliseu). Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dês ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis (“nádegas”, em latim)? Numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro. Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum, e sempre que o olharem dirão: Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou! Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas.
Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Velca eco appareat (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo). Esperarei por ti ao lado de Júpiter”.
O imperador Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito, o generoso, inaugurou o Coliseu com 100 dias de festas, com gladiadores chutando a cabeça dos adversários, não exatamente como aconteceria em 1934, quando a Itália venceu a Tchecoslováquia por 2 a 1 e levou o caneco pela primeira vez.
Fonte: Gazeta do Povo

Onde andará o meu Doutor? - Tatiana Bruscky

Hoje acordei sentindo uma dorzinha,
aquela dor sem explicação, e uma palpitação,
resolvi procurar um doutor,
fui divagando pelo caminho...
lembrei daquele médico que me atendia vestido de branco
e que para mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo...
o Meu Doutor que curava a minha dor,
não apenas a do meu corpo mas a da minha alma,
que me transmitia paz e calma!

Chegando à recepção do consultório,
fui atendida com uma pergunta:
“Qual o seu plano? “
Ah, o meu plano é viver mais e feliz!
é dar sorrisos, aquecer os que sentem frio
e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas a resposta teria que ser outra...o meu plano de saúde!

Apresentei o documento do dito cujo
já meio suado, tanto quanto o meu bolso, e aguardei...
Quando fui chamada corri apressada,
ia ser atendida pelo Doutor,
aquele que cura qualquer tipo de dor,
entrei e o olhei, me surpreendi,
rosto trancado, triste e cansado...
será que ele estava adoentado?
é, quem sabe, talvez gripado
não tinha um semblante alegre,
provavelmente devido à febre...
dei um sorriso meio de lado e um bom dia...
Sobre a mesa, à sua frente, um computador,
e no seu semblante a sua dor,
o que fizeram com o Doutor?

Quando ouvi a sua voz de repente:
O que a senhora sente?
Como eu gostaria de saber o que ELE estava sentindo...
parecia mais doente do que eu, a paciente...
Eu? ah! sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação
e esperei a sua reação,
vai me examinar, escutar a minha voz
auscultar o meu coração...
para minha surpresa apenas me entregou uma requisição e disse:
“peça autorização desses exames para conseguir a realização”...
quando li quase morri...

Tomografia computatorizada, ressonância magnética e cintilografia !

ai, meu Deus! que agonia!
eu só conhecia uma tal de abreugrafia...
só sabia o que era ressonar (dormir),
de magnético eu conhecia um olhar...
e cintilar só o das estrelas!
estaria eu à beira da morte? de ir para o céu?
iria morrer assim ao léu?
naquele instante timidamente pensei em falar:
terá o senhor uma amostra grátis
de calor humano para aquecer esse meu frio?
que fazer com essa sensação de vazio? e observe, Doutor,
o tal Pai da Medicina, o grego Hipócrates, acreditava que
A ARTE DA MEDICINA ESTAVA EM OBSERVAR.


Olhe para mim...
bem verdade que o juramento dele está ultrapassado!
médico não é sacerdote...
tem família e todos os problemas inerentes ao ser humano...
mas, por favor, me olhe, ouça a minha história!
preciso que o senhor me escute, ausculte
e examine!

Estou sentindo falta de dizer até aquele 33!
não me abandone assim de uma vez!
procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança!
alimente a minha mente e o meu coração...
me dê, ao menos, uma explicação!
O senhor não se informou se eu ando descalça... ando sim!
gosto de pisar na areia e seguir em frente
deixando as minhas pegadas pelas estradas da vida,
estarei errada?
ou estarei com o verme do amarelão?
existirá umas gotinhas de solução?

Será que já existe vacina contra o tédio?
ou não terá remédio?
que falta o senhor me faz, meu antigo Doutor!
cadê o Sccot, aquele da Emulsão?
que tinha um gosto horrível mas me deixava forte
que nem um Sansão!
e o Elixir? Paregórico e categórico,
e o chazinho de cidreira,
que me deixava a sorrir sem tonteiras?
será que pensei asneiras?

Ah! meu querido e adoentado Doutor!
sinto saudades
dos seus ouvidos para me escutar,
das suas mãos para me examinar,
do seu olhar compreensivo e amigo...
do seu pensar...
o seu sorriso que aliviava a minha dor...
que me dava forças para lutar contra a doença...
e que estimulava a minha saúde e a minha crença...
sairei daqui para um ataúde?
preciso viver e ter saúde!
por favor, me ajude!

Oh! meu Deus, cuide do meu médico e de mim,
caso contrário chegaremos ao fim...
porque da consulta só restou uma requisição
digitada em um computador
e o olhar vago e cansado do Doutor!
precisamos urgente dos nossos médicos amigos,
a medicina agoniza...
ouço até os seus gemidos...

Por favor, tragam de volta o meu Doutor!
estamos todos doentes e sentindo dor...
e peço, para o ser humano, uma receita de calor,
e para o exercício da medicina uma prescrição de amor!