sexta-feira, 6 de abril de 2012
Papo de boleiro com César Sampaio
César Sampaio é o convidado para a conversa descontraída com Fernando Fernandes no Papo de Boleiro
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Os cheiros, uma Crônica de Danuza Leão
Existem cheiros inesquecíveis. Cada pessoa tem seus prediletos. E basta uma mínima lembrança para que tudo volte: a temperatura do momento, a felicidade ou a tristeza que se sentia, as imagens de quem estava perto, tudo. Tudo. Cheiros podem ser alegres ou tristes. Era muito bom quando se entrava em casa depois do colégio, logo antes do almoço, e se sentia o cheiro do refogado – alho, cebola e tomate – para fazer o picadinho ou o bife de panela enrolado no bacon e preso por um palitinho. Quantos segundos você leva para atravessar o tempo e voltar aos seus 11 anos?
Lembra quando há muitos, muitos anos, você ia passar as férias na fazenda? Ah, uma fazenda tem aromas absolutamente inesquecíveis: o do capim, o da terra depois da chuva, o do estábulo onde se ia de manhã bem cedo tomar o leite tirado da vaca, ainda morno, numa canequinha de alumínio. E o cheiro da tangerina? Aliás, tangerina não, mexerica; aquela pobrinha, modesta, de casca fina, que deixava a mão cheirando durante três dias. Esse é um cheiro muito alegre. O cheiro do bolo saindo do forno é para sempre – bolo de tabuleiro, cortado em losangos, com cobertura de açúcar com limão, e um detalhe precioso: naquele tempo, por mais que se comesse não se engordava, e em cima da mesa havia sempre um vidro de fortificante para abrir o apetite. Que felicidade uma infância no interior!Mas existem outros aromas não ligados ao paladar e também inesquecíveis. O cheiro do mar quando se chega em Salvador – uma licença poética, com licença. E você já teve uma tia-avó que morava numa casa bem arrumada, cujo assoalho era encerado toda semana? O brilho era dado a mão, com uma escova de cabo alto como uma vassoura, e era chegar e ouvir: “Cuidado para não escorregar”. Que cheiro limpo, honesto, que cheiro de gente direita. Será que isso ainda existe?
Mas há também os cheiros angustiantes: os de hospital, de sala de cirurgia. Muito cheiro de flor você sabe o que lembra – melhor não falar disso. E existem os perfumes ricos: de carro novo, de um bom fumo de cachimbo. E vamos combinar: cheiro de alho é bom na cozinha, de sexo no quarto, e é proibido misturar. Por falar nisso, o cheiro do homem que se ama, depois do amor, é melhor nem lembrar para não desmaiar de saudade.
As cidades também têm seu cheiro, cada uma muito particular: se você for levada, de olhos vendados, para o Bloomingdale’s, sabe na hora que está em Nova York. E se respirar um aroma de cominho misturado a curry e a canela vai saber que está no souk de Marrakesh.
Mas existe um cheiro que só as mulheres conhecem. É o que elas sentem quando estão enxugando seus bebês depois do banho. É preciso que não haja uma só pessoa por perto num raio de 200 metros para não haver interferência de qualquer ordem. Sem nenhuma presença estranha – nem mesmo a do pai –, mãe e filho poderão dizer bobagens e rir de coisas que só eles vão entender. Depois do talco, a mãe vai botar o nariz no pescoço de sua cria e cheirar com todos os seus cinco sentidos. No princípio timidamente, mas cada vez mais forte, até quase arrebentar os pulmões de tanto amor. Na hora a gente não sabe, mas um dia vai saber: não existe nada igual a esse cheiro nem a esse momento, e nunca vai haver um melhor. Porque esse é o cheiro da vida.
Danuza Leão é cronista, autora de vários livros
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TEXTOS
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Eu te amo - Nadia Foes
São três palavras
que podem fazer toda a diferença. O personagem de Wallace Stegner no seu
magistral Ângulo de Repouso coloca em questão as cartas trocadas pela sua avó
há cem anos. A dúvida é se entre as duas amigas, Susan e Augusta, houve ou não
algo mais que uma simples amizade. Se sua avó era ou não homossexual.
Considerando que o personagem em questão é um professor de história aposentado
precocemente. Contemporâneo que dá um mergulho no passado em busca de fatos da
vida de sua avó. Nas cartas Susan se dirige à amiga de forma carinhosa e se
despede com um “eu te amo”. Eu também digo “eu te amo” para todos os meus
amigos porque eu realmente acredito em várias formas de amor. Eu amo meu
cardiologista, eu amo minha dermatologista, eu amo a empregada de minha filha
pelo carinho que dispensa a minha filha e netos, amo meus familiares e costumo
me dirigir as minhas amigas com um “querida” e me despeço com um “eu te amo”.
Pois agora estou empenhada em ensinar a minhas netas a importância de dizer “eu
te amo”. Não saio por aí distribuindo o “eu te amo” como se fosso panfleto.
Estas palavras devem ser pronunciadas com muita responsabilidade. Se todos
aprenderem dizer “eu te amo” nosso mundo será muito melhor. Aproveita e pegue o
telefone e diga para seus amigos “eu te amo” antes que seja tarde. Vamos
exercitar nossa capacidade de amar, de afagar, de dar um abraço apertado. Amar
é de graça e só faz bem. Vamos distribuir uma bula de amor. Indicação:
tristeza, solidão, doenças em geral, distância de amigos, amargura, coração
apertado, boca amarga, falta de energia vital, isolamento, raiva, inveja. Guarde
seus afetos em lugar fresco e seco. Composição: amor, aura e mais amor igual
amor. Não mantenha este medicamento longe das crianças ou animais
domésticos. Este medicamento não tem efeito colateral, pode ser usado
com adultos, crianças e idosos. Modo de usar: dose mínima, de hora em
hora diga “eu te amo”. Superdosagem: use à vontade. Reações adversas:
não tem. Precauções: vá em frente. Contra Indicações: não tem. Ação
esperada do medicamento: alegria, retorno amoroso, felicidade, pele
brilhante, cabelos idem, rejuvenescimento, paz de espírito. Interrupção do tratamento:
não interromper, uso contínuo. Ingestão concomitante: com outras
substancias todas as pesquisas comprovam pode fazer uso sem preocupação. Prazo
de validade: infinito. Este é um medicamento se não souber usar procure um
psiquiatra pois você pode estar precisando e não sabe o que está perdendo. Não
existe beleza maior que o amor fraterno. Talvez você venha a se deparar com
situações ridículas. Uns tempos atrás um jovem me perguntou porque você me
trata tão bem. A pergunta foi formulada de modo impertinente. Respondi: porque
exatamente neste momento eu espero que alguém a milhares de quilometro de distancia
esteja fazendo o mesmo pela minha filha. Lembre-se, quem não recebeu amor não
sabe dar, não sabe amar.
“Os temas é que escolhem o escritor. Tenho
sempre a sensação de que haviam certas histórias que eu tinha que escrever, que
não havida jeito de evitá-las, mas existe um elemento muito difícil de ser
captado por um leitor médio: o narrador de uma história não é nunca o autor. É
sempre uma invenção.” (Mário Vargas Lhosa)
Restaurandora
de bens culturais, pintora, escultora, ourives, Em 2010 foi
classificada em concurso internacional em contos e cronicas, Três livros
publicados e uma coletânea do concurso Edições AG. Mora em Florianópolis, na ilha, casada, três filhos, gosta de animais
domésticos, de cultivar plantas, reunir os amigos, viajar, leitura,
cinema, e a paixão de escrever.
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Nadia Foes
terça-feira, 3 de abril de 2012
Entrei com “Dengue” e saí com “Virose”... - Ana M. R. Campos
“ A desconsideração das varáveis sócio – econômicas explica em grande parte o malogro total ou parcial dos planos de saúde.”
Carlos Gentile de Mello – Sistema de Saúde em Crise
Um
dos cruéis momentos de nossa vida, é quando temos que enfrentar e
vivenciar situações de calamidade pública despreparo e falta de
responsabilida de uns aos outros. E é na pele, que sentimos por nós,
pelos irmãos, que não têm condições financeiras para receber e com
dignidade, um tratamento, que condiz ao respeito humano.
Estar
ou não com “Dengue” ou “Virose”, é um caso a parte. O mais importante, é
deixar bem claro, a panacéia ocasionada pelo tão poderoso “Aedis Egipity”
e que não conseguimos vencê –lo. Permanece a batalha invencível do
nosso dia – a – dia e sem termos mais a quem apelar para sanar ou
prevenir contra as doenças de toda espécie, que destroem o povo
brasileiro.
Os
hospitais lotados de pacientes, que aguardam e às vezes morrem, por um
atendimento; por outro lado, plantas, entulhos nos quintais, pratinhos
de vasos com flores, que nos alegram desde cedo a viver a vida, bueiros,
fossas, caixas d águas e outros locais, são dominados por esse tão
pequenino mosquito, causador de tanta doença, e é ele, apontado como o
culpado. É impressionante!
E
é justamente, nessa hora, que nos sentimos acuados, frágeis, sem ação e
completamente sem forças para se fazer algo em troca. Ainda bem que,
hoje utilizamos do teclado do computador, internet (e não mais a pena da
caneta) para expressarmos nossas alegrias, tristezas, frustrações e decepções.
As
medicinas, os médicos, não têm culpa, quando se deparam com um caso
clínico de “Dengue”. A clínica médica diagnostica, o laboratório
confirma e prova por meio de exames, o diagnóstico médico, e o paciente
sofre e aguarda os resultados e as soluções frente aos seus problemas de
saúde. (no caso aqui, a dengue)
Antigamente,
o médico era clínico de verdade, tratava com precisão, e o seu
diagnóstico também era preciso. O juramento de Hípócrates era o que
prevalecia em seu exercício, na profissão: “Prometo que, ao exercer a
arte de curar, mostrar – me – ei sempre fiel aos preceitos da
honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares,
meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem
revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei da
minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu
cumprir este juramento com fidelidade, goze eu para sempre a minha vida e
a minha arte com boa reputação entre os homens; se o infringir ou dele
afastar – me, suceda – me o contrário.” ( Hipócrates, 450 a .
C)
Hoje
constatamos que, existe uma demanda muito grande de laboratórios
espalhados por esse Brasil afora. Muitas vezes, o resultado do
diagnóstico clínico não se coincide com o resultado do laboratório.
Segundo pesquisas, seriam os erros laboratoriais. “Deixamos bem claro, que os laboratórios clínicos desempenham um papel fundamental no suporte às decisões médicas”. Os erros variam entre 54.5% e 88.9%, total de incidentes. (fonte: Saúde e Clínica para todos)
Para
as autoridades competentes, tudo isso passa batido. Existe uma pesquisa
rolando em um meio de comunicação, (TV) a fim de se eleger o homem mais
poderoso do Brasil. Quem sabe é a nossa hora de acertar, hein!.
Torçamos por isso, pois só assim, quem sabe, conseguiremos vencer o “mosquito da dengue”.
E
ao ser apontado o vencedor do concurso, quem sabe conseguiríamos um
saneamento básico; quem sabe diminuiríamos a pobreza e a miséria; quem
sabe não teríamos tantas injustiças ao lidar com o ser humano; quem sabe
subiríamos na escala pelo critério da classificação de renda; quem sabe
a Saúde passaria a ser prioridade...
A
saúde no Brasil capenga, ela já nasceu doente. Pobres de nós,
brasileiros, que vivemos em uma sociedade, que ainda acredita em
história da Carochinha, do país do faz de conta, e que estamos “deitados
eternamente em berço esplêndido”.
“Entrei com “Dengue” e saí com “Virose”, continuará. O mosquito ao nosso redor, a nos ameaçar e à nossa saúde.
O
quadro da saúde pública e particular da nossa população, é sem dúvida
alguma, gritante, permeado pela hipocrisia. Com isso, necessitamos de
uma atuação mais radical e geral de toda a sociedade brasileira. Está em
nossas mãos, aqui, e agora... O VOTO.
Ana M. R. Campos
Natural de Uberaba – MG, reside em Ituiutaba – MG – Professora, formada em Licenciatura em Letras pela UEMG – Pós Graduação em Filosofia.
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ANA MARIA CAMPOS
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Olhar Urbano - Desprendimento ( Teresa Santos )
E eu o deixei ir. Não tinha mais jeito.
Ou o eliminava do meu coração ou piraria. E ficar louca de amor, não estava em meus projetos de vida.
Vi que ele nunca soube avaliar a ternura, o carinho e o amor a ele destinados, desde praticamente sempre.
Fui para ele apenas um passatempo. Uma companhia para diminuir a solidão de duas pessoas maduras e que poderia ser descartada a qualquer hora.
Há algum tempo pude ter a exata dimensão do acontecido: tornei-me somente o preenchimento de um vazio.
No entanto, em minha cabeça, aquele "carinho" - que ele parecia demonstrar por mim - tinha outro significado. E me enganei.
Confesso que me desprender foi um grande exercício de humildade e perserverança.
Ou o eliminava do meu coração ou piraria. E ficar louca de amor, não estava em meus projetos de vida.
Vi que ele nunca soube avaliar a ternura, o carinho e o amor a ele destinados, desde praticamente sempre.
Fui para ele apenas um passatempo. Uma companhia para diminuir a solidão de duas pessoas maduras e que poderia ser descartada a qualquer hora.
Há algum tempo pude ter a exata dimensão do acontecido: tornei-me somente o preenchimento de um vazio.
No entanto, em minha cabeça, aquele "carinho" - que ele parecia demonstrar por mim - tinha outro significado. E me enganei.
Confesso que me desprender foi um grande exercício de humildade e perserverança.
Somente quem já amou
alguém de verdade pode avaliar o que senti.
Até que o Destino sabiamente cortou os laços que nos " uniam".
Foi muito duro abrir os olhos e tirar aquela névoa adolescente que achava ter encontrado seu princípe encantado. Foi muito duro ver que o principe estava mais para sapo do que para qualquer outra coisa.
E tudo isso - hoje reconheço - só teve uma única culpada: eu. Idealizei um homem que não existia. Joguei fichas em quem não merecia. Amei uma ilusão. E as ilusões, costumam ferir muito, quando acabam.
Até que o Destino sabiamente cortou os laços que nos " uniam".
Foi muito duro abrir os olhos e tirar aquela névoa adolescente que achava ter encontrado seu princípe encantado. Foi muito duro ver que o principe estava mais para sapo do que para qualquer outra coisa.
E tudo isso - hoje reconheço - só teve uma única culpada: eu. Idealizei um homem que não existia. Joguei fichas em quem não merecia. Amei uma ilusão. E as ilusões, costumam ferir muito, quando acabam.
Saí muito ferida. Hoje
sei que foi exclusivamente culpa minha. Se eu tivesse sido um pouquinho
mais racional teria visto que aquele "relacionamento" era uma grande
farsa.
Foi necessário, no entanto, passar por tudo que passei. E da forma mais cruel possível.
Enquanto isso, a outra extremidade dava às costas e partia para uma nova conquista.
Ainda fiquei - alguns meses- em estado de estupefação. Procurava entender o inexplicável.
Foi necessário, no entanto, passar por tudo que passei. E da forma mais cruel possível.
Enquanto isso, a outra extremidade dava às costas e partia para uma nova conquista.
Ainda fiquei - alguns meses- em estado de estupefação. Procurava entender o inexplicável.
E eis que algo
aconteceu.... D´us presenteou a minha vida.
E a partir deste bonito
presente constato que o melhor estava por vir.
Quanto ao outro, ficou no passado. E lá pretendo deixá-lo para sempre.
Quanto ao outro, ficou no passado. E lá pretendo deixá-lo para sempre.
Teresa Santos, 60 anos,
paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São
Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler e de observar
o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É
grata à vida e se considera uma pessoa
feliz.
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TERESA SANTOS
domingo, 1 de abril de 2012
O clube dos gênios mortos - Zuenir Ventura
Heleno de Freitas, Raul Seixas e Chico Anysio. O primeiro no futebol, o
segundo na música e o terceiro no humor. Os dois primeiros foram tidos
como loucos, o terceiro, como normal, o que dificulta a caracterização
dos tipos a que chamamos de gênios. Podem ser esquisitos ou malucos,
mas podem ser também gente como a gente, aparentemente. Em menos de 15
dias estive em contato com os três: dois na tela grande — "Heleno", de
José Henrique Fonseca; "O início, o fim e o meio", de Walter Carvalho —
e Chico em todas as TVs, jornais e revistas do país.
Não vi Heleno jogar, só ouvi (sou da época em que se ouvia, mais do que se via futebol), mas ele foi meu ídolo, mesmo sendo botafoguense incurável, tanto quanto a doença que o matou. Raul também só conheci de ouvido. Embora eu tivesse lido muito sobre eles, os filmes me foram indispensáveis para a compreensão desses trágicos personagens. Não concordo com os que acham que Heleno foi o precursor de bad-boys ou rebeldes sem causa como Edmundo. Há pelo menos uma diferença: mesmo bebendo e cheirando éter, Heleno, o angustiado perfeccionista, só fez mal a si mesmo. Sem sífilis e com barba e cabelos grandes, ele estaria mais para contestadores como Sócrates e como Afonsinho, outro botafoguense maltratado pelo clube de Dapieve e Sérgio Augusto.
Em relação a Raul, o documentário de Walter, que é também o extraordinário fotógrafo de "Heleno", desfaz o mito que atribui sua genialidade às drogas (impressionante a revelação de Paulo Coelho de que ele, o mago, foi quem iniciou o parceiro no vício). O compositor foi genial apesar delas, que, junto com o alcoolismo e a pancreatite, só serviram para abreviar sua vida. Heleno e Raul pertenceriam à categoria dos "iracundos", dos seres radicalmente inconformados, na qual o antropólogo Darcy Ribeiro se incluía e incluía Glauber Rocha.
De Chico Anysio também não fui próximo, a não ser por meio de seu irmão Zelito, meu amigo. Graças a isso, tive o privilégio de passar alguns fins de semana no sítio da família e, em uma dessas vezes, pude observar que o inacreditável criador de mais de 200 tipos (Fernando Pessoa criou 68 e quatro heterônimos) não correspondia à expectativa de que profissional do riso tem que fazer graça o tempo todo. Não ri uma vez sequer com ele, só com o irmão cineasta, que, esse sim, parecia o humorista da família.
O que se pode concluir desses exemplos é que não há receita para a matéria-prima com que são feitos os gênios. Trata-se de um enigma. O que há de comum é o fato de que cada um é uma matriz, um padrão original, uma fôrma que não consegue ser replicada. Em outras palavras, eles são aqueles raros exemplares que vieram ao mundo para serem fundadores de novos modos de proceder em qualquer ramo de atividade.
Não vi Heleno jogar, só ouvi (sou da época em que se ouvia, mais do que se via futebol), mas ele foi meu ídolo, mesmo sendo botafoguense incurável, tanto quanto a doença que o matou. Raul também só conheci de ouvido. Embora eu tivesse lido muito sobre eles, os filmes me foram indispensáveis para a compreensão desses trágicos personagens. Não concordo com os que acham que Heleno foi o precursor de bad-boys ou rebeldes sem causa como Edmundo. Há pelo menos uma diferença: mesmo bebendo e cheirando éter, Heleno, o angustiado perfeccionista, só fez mal a si mesmo. Sem sífilis e com barba e cabelos grandes, ele estaria mais para contestadores como Sócrates e como Afonsinho, outro botafoguense maltratado pelo clube de Dapieve e Sérgio Augusto.
Em relação a Raul, o documentário de Walter, que é também o extraordinário fotógrafo de "Heleno", desfaz o mito que atribui sua genialidade às drogas (impressionante a revelação de Paulo Coelho de que ele, o mago, foi quem iniciou o parceiro no vício). O compositor foi genial apesar delas, que, junto com o alcoolismo e a pancreatite, só serviram para abreviar sua vida. Heleno e Raul pertenceriam à categoria dos "iracundos", dos seres radicalmente inconformados, na qual o antropólogo Darcy Ribeiro se incluía e incluía Glauber Rocha.
De Chico Anysio também não fui próximo, a não ser por meio de seu irmão Zelito, meu amigo. Graças a isso, tive o privilégio de passar alguns fins de semana no sítio da família e, em uma dessas vezes, pude observar que o inacreditável criador de mais de 200 tipos (Fernando Pessoa criou 68 e quatro heterônimos) não correspondia à expectativa de que profissional do riso tem que fazer graça o tempo todo. Não ri uma vez sequer com ele, só com o irmão cineasta, que, esse sim, parecia o humorista da família.
O que se pode concluir desses exemplos é que não há receita para a matéria-prima com que são feitos os gênios. Trata-se de um enigma. O que há de comum é o fato de que cada um é uma matriz, um padrão original, uma fôrma que não consegue ser replicada. Em outras palavras, eles são aqueles raros exemplares que vieram ao mundo para serem fundadores de novos modos de proceder em qualquer ramo de atividade.
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