Tudo aconteceu propriamente sem me dar conta.
Estudante razoável, trabalhei por anos a fio no comércio; muita ralação,
noites infindáveis por entre mesas apinhadas, equilibrando bandejas ao tilintar de copos, pratos e talheres.
Acabei assim por tecer contato com muita gente, e quase sem sentir já me tornava uma figura popular.
Até aí morreu o Neves...
Um dia caí nas graças de um político influente, cliente antigo do restaurante, que vendo meu perfil carismático, me arrebanhou de pronto para o seu partido. Daí para a primeira campanha eleitoral foi um passo.
Conseguir uma vaga entre os eleitos, um outro um pouco mais demorado, mas com sua providencial ajuda, pleno de sucesso.
E hoje, passados alguns anos, estou aqui, meditando sobre a vida, um Scott nas mãos diante de um belo por do Sol na minha cobertura.
Observo sem interesse específico, através do fumê, a rua lá embaixo... Um pequeno bar se destaca no burburinho da travessa em frente; lotado, cadeiras espalhadas pela calçada, no calor da tarde neste bonito horário de verão.
Todos assistem a mais uma rotineira partida de futebol. Dentre eles está o Beto, com sua eterna camisa azul do Cruzeiro, reconheço-o de pronto; ele, pintor dos bons nos tempos em que como síndico o contratava para pequenos trabalhos nas áreas internas e muros do prédio. Hoje, tenho ouvido dizer, tá difícil conseguir uma vaga na sua agenda.
O Beto é como todos ali, sujeito simpático, mas que nada aspira senão o momento presente, sem plano de saúde nem carteira assinada, apenas o tira-gosto farto, o cigarro e a cervejinha gelada. E, é claro, a algazarra ao vibrar pelo time do coração na hora do gol, gozando sem dó a turma adversária. Piedade é o que eles menos têm nessa hora, e haja zoação.
Piedade, palavra cada vez mais rara em nosso tempo, quase diretamente oposta a iniquidade, em contrapartida, tão em voga ultimamente.
Que palavra estranha, essa tal iniquidade, e após repeti-la mentalmente, acaba por me soar mais estranha ainda.
Antes quando não tinha qualquer poder de decisão, e me julgava um cara papo reto, lutava em minhas prosas vadias por tudo que fosse em prol do cidadão... Agora, que possuo influência para provocar mudanças efetivas, melhorando o rumo das coisas para o povão, pouco se me dá aquela aspiração antiga.
Pelo contrário, até me causa espécie lembrar do fato de ter pensado assim no passado. Aonde estava com a cabeça, querendo ajudar quem simplesmente não estava a fim, numa arrematada perda de tempo ?
Hoje sei que há muito o premier Charles De Gaulle já discursava com muita propriedade sobre esse tema. Ajudar quem não quer ser ajudado...
Acabo assim por inferir que cada um busca o seu próprio destino; se fulano ou sicrano está feliz sem estudar, trabalhando apenas algumas horas, três vezes na semana, o suficiente pra escapar do puxadinho no quintal coletivo e conquistar o raro prazer numa mesinha de bar,sem pensar nos filhos crescendo com igual futuro, por que seria eu a me preocupar com isso ?
De resto, quem faria os trabalhos mais pesados e simples se todos tivessem o físico e o cérebro de um intelectual ? Precisamos de gente que elabore as leis que regem o país tanto quanto necessitamos dos garis, faxineiras, serventes de obra etc e tal. O importante é que todos estejam felizes assim, cada um no seu quadrado, como preconiza a máxima funkeira...
Do avô, que sentindo-se ainda importante, contribui com afinco no sustento da família com sua mirrada aposentadoria, ao neto, vendendo balas no sinal, correndo fagueiro por entre os carros importados dos bacanas.
O importante é ver como um todo, a alegria estampada no rosto da rapaziada, nesse abençoado Brasil, ausente de catástrofes naturais.
Enquanto isso fico aqui, menos denso agora depois dessa tocante divagação. Curtindo o meu lazer, com minha consciência absolutamente em paz.
E assim caminha a humanidade, meu amigo.
Do leão, tranquilo no topo da tenra cadeia alimentar, ao abutre, limpando os restos putrefatos espalhados pelas encostas das colinas; cada qual no seu papel, neste belo e perfeito antro de iniquidades !
Nilson Ribeiro, poeta ao acaso desde menino, fluminense de 57 anos, dos quais 42 de labuta, lidando com gente de todo quilate, fiz disso inspiração diária pra aguentar os trancos da vida.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Mercedes - Nadia Fóes
Mercedes
mulher simples e batalhadora aos quarenta anos comandava com mãos de ferro uma
conceituada administradora de condomínios. Sua carteira de clientes era formada
só por endereços estrelados. Era dona de uma casa muito bonita e um cachorro; na
sua garagem uma moto poderosa e um carro de passeio que ela só usava em
ocasiões especiais. No dia a dia usava o carro com motorista e logotipo de sua
administradora. Era caprichosa no vestir, gostava de usar terninhos, lencinhos
no pescoço e scarpin. Sua vasta cabeleira era usada presa em coque alto e laço Chanel. Ela achava
discreto e chic. Porém ela não estava feliz. Este período durou até ela bater
seus olhos em um bonitão. O lance foi rápido. Ela foi visitar um condomínio novo e o príncipe era o segurança.
Ela viu nele o reprodutor ideal, e contrariando seus princípios e ética,tratou
de laçar o segurança e casou. No início do casório ele descia a ladeira a pé
para pegar o ônibus na avenida a pé, de mochila nas costas, e ela, de sua
sacada, jogava beijos de sopro. Logo em seguida ela dava inicio ao cerimonial
de se arrumar que levava duas horas, contadas no relógio. Ás nove horas o seu
motorista estava a postos. No final da tarde por volta das dezessete horas, o
seu marido chegava em casa, e saía para passear com o cachorro, varria o
jardim, molhava as plantas e colocava o lixo na rua. Pareciam o típico casal
apaixonado. Mercedes costumava chegas as dezenove e trinta trazendo o
tradicional vinho chileno e a deliciosa massa do magazine, Estavam felizes e
Mercedes resolveu que o doce marido deveria usar a sua moto; ele não se fez de
rogado e passou o verão pilotando a moto. Seus dias de andar de ônibus
acabaram. No inicio do inverno se queixou do frio e recebeu de presente roupas
de couro; não gostou e disse que se Mercedes confiasse nele ele poderia usar o
carro dela. Ela concordou, pois estava ocupada fazendo tratamento para
engravidar. De posse do carro, ele passou a chegar mais tarde porque o trânsito
estava caótico. Já não levava o cachorro para passear, não varria o jardim,
estava sem tempo. Na chegada da primavera ele avisou a mulher que queria fazer
um curso para ser corretor de imóveis, estava cansado do seu trabalho de
segurança e confiava em seu talento para se comunicar. Ela concordou. Ele fez o
curso. Ela quis anexar a imobiliária na sua administradora, coisa que o marido
não concordou. Hoje Mercedes está perdendo cliente por má administração, já não
usa terninhos porque não dá para passear com o cachorro de scarpin; anda jeans,
tênis e camiseta. Seus cabelos estão ao vento, tipo juba de leão e passa o dia
inteiro controlando o marido pelo telefone.
Restaurandora
de bens culturais, pintora, escultora, ourives, Em 2010 foi
classificada em concurso internacional em contos e cronicas, Três livros
publicados e uma coletânea do concurso Edições AG. Mora em Florianópolis, na ilha, casada, três filhos, gosta de animais
domésticos, de cultivar plantas, reunir os amigos, viajar, leitura,
cinema, e a paixão de escrever.
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Nadia Foes
domingo, 9 de dezembro de 2012
Quem ama mata ou morre -- Danusa Leão
Um homem ao lado da mulher que ama é outra pessoa, alguém que nem sua própria mãe reconhece
O amor é maravilhoso, não é? É, responde o mundo em coro. Mas por que será que as pessoas mudam tanto quando apaixonadas? Os mais boêmios, que passavam as madrugadas contando histórias idiotas, mas muito divertidas, que tinham sempre uma opinião diferente e original sobre os assuntos do dia, tornam-se austeros -e a bem da verdade, bem menos interessantes.
O "affair" do diretor do FMI, por exemplo: qualquer homem, em companhia de seus íntimos, dirá que, se a camareira fosse gostosa, faria a mesma coisa. Única ressalva: negaria até o fim, mesmo diante da Suprema Corte. Mas, se estiver ao lado da namorada, vai dizer que esse tipo de procedimento é indigno e que um homem que se respeita não pode, jamais, fazer nada de parecido. Quanto a elas -bem, se eles são assim, por que elas seriam diferentes?
Num almoço só de mulheres, depois da segunda caipirinha, algumas serão suficientemente francas para dizer que adoram homens atrevidos e ousados. Mas ponha essas mesmas mulheres ao lado dos maridos e pasme diante do que elas vão dizer, dele e da pobre camareira.
Um homem ao lado da mulher que ama é outra pessoa, alguém que nem mesmo sua própria mãe é capaz de reconhecer; ele é capaz de dizer que não acha a menor graça em mulher alguma, que quem ama é fiel e que para ele só existem duas coisas que realmente importam: ela -em primeiro lugar- e o time pelo qual torce. Se você encontrar esse mesmo homem almoçando com três amigos no centro da cidade, traçando uma linguicinha com um chope, vai descobrir que se trata de outra pessoa, só pelo som das gargalhadas. E, se passar uma bela morena com as pernas de fora, será um belo festival de baixarias.
Se você tiver uma única e grande amiga e ela se apaixonar, fique sabendo que ficou sozinha no mundo. Fazer uma refeição com um casal apaixonado está acima das forças de qualquer ser humano não apaixonado, pois o mundo deles é diferente, e nele não há lugar para pessoas normais.
Quem ama se transforma em outra pessoa, com outros gostos e outras opiniões, capaz de roubar a aliança da própria mãe para passar um fim de semana no Caribe com o ser amado, isto é: torna-se uma pessoa indigna de nossa confiança.
Aquela mulher que, quando entrava na discoteca, começava a mexer o corpo, hoje em dia fica paralisada, surda e muda, talvez pelas lembranças que a música traz -ah, como são coerentes, as mulheres. Só que ele se apaixonou por ela exatamente quando ela mexia não só o corpo, como o gelo do copo de uísque com o dedo, e agora, quando olha para aquela mulher austera, não entende por que a vida era tão melhor.
Você já foi a um show de striptease com seu amado? Bem, quando o romance começou, ele brincava e atiçava seu ciúme com elogios às gostosas no palco; agora, quando vê uma mulher pelada numa revista, olha sério, sem uma só expressão no rosto, como se estivesse vendo um quadro num museu. Ele virou um marido, tudo que você sempre quis, e por nada no mundo você faria um strip particular só para ele, como já fez; certas coisas não são para serem feitas com o marido.
Tente ir com ele a uma praia da Europa, daquelas em que as mulheres tiram muito naturalmente o sutiã para tomar sol. Nervoso ele vai ficar -ah, isso vai. Faça então uma experiência e diga que vai tirar o seu: um homem das cavernas vai surgir de dentro daquele que passava a mão nas suas pernas no carro, no meio do trânsito, com o ar mais sério do mundo.
Onde foi parar esse homem? Onde foi parar aquela mulher que vivia feliz e risonha, que não queria nada da vida a não ser ficar junto com ele, agarrada, apaixonada? Quem ama não mata? Mata, sim; ou mata o outro, ou mata a si próprio -e o fim dessa história a gente conhece.
Fonte: Folha de SP
O amor é maravilhoso, não é? É, responde o mundo em coro. Mas por que será que as pessoas mudam tanto quando apaixonadas? Os mais boêmios, que passavam as madrugadas contando histórias idiotas, mas muito divertidas, que tinham sempre uma opinião diferente e original sobre os assuntos do dia, tornam-se austeros -e a bem da verdade, bem menos interessantes.
O "affair" do diretor do FMI, por exemplo: qualquer homem, em companhia de seus íntimos, dirá que, se a camareira fosse gostosa, faria a mesma coisa. Única ressalva: negaria até o fim, mesmo diante da Suprema Corte. Mas, se estiver ao lado da namorada, vai dizer que esse tipo de procedimento é indigno e que um homem que se respeita não pode, jamais, fazer nada de parecido. Quanto a elas -bem, se eles são assim, por que elas seriam diferentes?
Num almoço só de mulheres, depois da segunda caipirinha, algumas serão suficientemente francas para dizer que adoram homens atrevidos e ousados. Mas ponha essas mesmas mulheres ao lado dos maridos e pasme diante do que elas vão dizer, dele e da pobre camareira.
Um homem ao lado da mulher que ama é outra pessoa, alguém que nem mesmo sua própria mãe é capaz de reconhecer; ele é capaz de dizer que não acha a menor graça em mulher alguma, que quem ama é fiel e que para ele só existem duas coisas que realmente importam: ela -em primeiro lugar- e o time pelo qual torce. Se você encontrar esse mesmo homem almoçando com três amigos no centro da cidade, traçando uma linguicinha com um chope, vai descobrir que se trata de outra pessoa, só pelo som das gargalhadas. E, se passar uma bela morena com as pernas de fora, será um belo festival de baixarias.
Se você tiver uma única e grande amiga e ela se apaixonar, fique sabendo que ficou sozinha no mundo. Fazer uma refeição com um casal apaixonado está acima das forças de qualquer ser humano não apaixonado, pois o mundo deles é diferente, e nele não há lugar para pessoas normais.
Quem ama se transforma em outra pessoa, com outros gostos e outras opiniões, capaz de roubar a aliança da própria mãe para passar um fim de semana no Caribe com o ser amado, isto é: torna-se uma pessoa indigna de nossa confiança.
Aquela mulher que, quando entrava na discoteca, começava a mexer o corpo, hoje em dia fica paralisada, surda e muda, talvez pelas lembranças que a música traz -ah, como são coerentes, as mulheres. Só que ele se apaixonou por ela exatamente quando ela mexia não só o corpo, como o gelo do copo de uísque com o dedo, e agora, quando olha para aquela mulher austera, não entende por que a vida era tão melhor.
Você já foi a um show de striptease com seu amado? Bem, quando o romance começou, ele brincava e atiçava seu ciúme com elogios às gostosas no palco; agora, quando vê uma mulher pelada numa revista, olha sério, sem uma só expressão no rosto, como se estivesse vendo um quadro num museu. Ele virou um marido, tudo que você sempre quis, e por nada no mundo você faria um strip particular só para ele, como já fez; certas coisas não são para serem feitas com o marido.
Tente ir com ele a uma praia da Europa, daquelas em que as mulheres tiram muito naturalmente o sutiã para tomar sol. Nervoso ele vai ficar -ah, isso vai. Faça então uma experiência e diga que vai tirar o seu: um homem das cavernas vai surgir de dentro daquele que passava a mão nas suas pernas no carro, no meio do trânsito, com o ar mais sério do mundo.
Onde foi parar esse homem? Onde foi parar aquela mulher que vivia feliz e risonha, que não queria nada da vida a não ser ficar junto com ele, agarrada, apaixonada? Quem ama não mata? Mata, sim; ou mata o outro, ou mata a si próprio -e o fim dessa história a gente conhece.
Fonte: Folha de SP
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Barateamento de celulares e câmeras revoluciona forma como classes C, D e E registram dia a dia
Mudança permite que muitos até então sem-retrato recontem suas histórias
Um passado sem rosto e sem rastro transformou a figura da mãe
numa pálida lembrança. E levou consigo a imagem da menina Camila,
ex-moradora de rua, sem deixar na adulta a certeza de como era quando
criança. Com a morte da mãe no parto do oitavo irmão, há nove anos,
depois de peregrinar com os sete irmãos pelas ruas de diversos bairros
do Rio, ela ganhou uma casa. Foi morar com a tia, em Duque de Caxias.
Cada irmão seguiu para viver com um parente.
Camila tem a chance agora de deixar impressa sua passagem pelo mundo. Ela ilustra farta variedade de estatísticas que apontam para o consumo crescente de celulares e câmeras digitais no país, instrumentos também de inclusão. Nos últimos três anos, o item de consumo que mais cresceu no Brasil foi a câmera digital (de 20% para 35%), indicam dados da consultoria Kantar Worldpanel, divulgados em setembro. Um estudo da Fecomércio do ano passado mostra que, de 2003 a 2009, o gasto com celular já havia aumentado 63,6% em todas as classes sociais. Na E, chegou a 312%. Soma-se a estes um outro dado, e a equação se completa: cerca de 66% dos brasileiros usam o celular para tirar fotografias, segundo pesquisa do Instituto Data Popular colhida este ano.
A democratização do acesso se consolidou, confirma a assessora econômica da Fecomércio-SP, Kelly Carvalho. A oferta maior de crédito, a ascensão das classes C, D e E, e a popularização irreversível da internet são agentes dessa revolução nos costumes:
— Hoje é quase impossível imaginar alguém que não tenha acesso a isso.
A antropóloga Hilaine Yaccoub, uma das autoras do blog Consumoteca, que analisa hábitos de consumo das classes C, D e E, atesta que estamos diante de novos tempos, moldados pela democratização do acesso ao registro de imagens. Tempos em que as classes populares deixaram de ser apenas o objeto fotografado (e, mesmo assim, discretamente) e tornaram-se também agentes desse universo pictórico: são produtores, em escala crescente, de imagens de seu cotidiano.
— A história oral da vida das famílias passa a ter um registro. As fotografias são uma narrativa, uma forma de contar a própria vida. Sempre quem tirava as fotos era gente de fora desse grupo social mais popular. Agora são eles falando e retratando a si mesmos. Antes, o processo era mais caro e mais complexo. Agora, é uma possibilidade de registros de descobertas. Muitas dessas descobertas são relacionadas a consumo, sabores, viagens — ressalta Hilaine.
Esse registro cotidiano era impensável em outros tempos. Antes da fotografia, no século XIX, apenas os muito ricos conseguiam pagar pelo registro, em pintura, de seus retratos.
— O homem comum não tinha esse acesso. Quando a fotografia surgiu, foi a oportunidade de a burguesia emergente ter acesso a um tipo de imagem de si mesmo que até então só a aristocracia fazia — narra o pesquisador e fotógrafo Pedro Karp Vasquez.
Enquanto comprava o celular, a prestação, Camila Claudia buscava um jeito de se registrar formalmente. Chegou a procurar em quatro cartórios de Duque de Caxias, sem o menor indício do lugar onde nascera. Ela diz que sabe seu nome porque a tia assim contou. Mas não consegue provar sua existência em nenhuma instância oficial. Enfrentou seu maior drama quando Camille nasceu, numa maternidade em Caxias: foi impedida de sair do hospital, porque não tinha como registrar a filha. Conseguiu uma autorização provisória, mas teria que providenciar os documentos. Antes disso, deixou a cidade e mudou-se para um casebre de três cômodos, na Gamboa.
Notebook para guardar fotos das filhas
A agonia se repetiu com o nascimento de Sofia. E ela se comprometeu novamente a providenciar os documentos. Antes disso, comprou, com a ajuda do marido, que ensaca farinha em um moinho, um notebook de segunda mão, cuja única função é guardar as fotos que faz das filhas. Camila agora espera o resultado de um processo aberto pela Defensoria Pública do Rio para conseguir o registro civil. E abrir caminho para o das filhas.
Camille e a irmã são fotografadas quase todos os dias em casa.
— Aqui é ela fazendo pose, ela adora ser fotografada. Ela vai poder mostrar para os filhos — exibe Camila, enquanto passa as fotos no celular. — Aqui é a Sofia, internada com bronquiolite — completa.
O registro fotográfico, para a psicóloga Maria Tereza Maldonado, ajuda na construção de uma identidade. É uma maneira de revisitar um museu pessoal.
— É uma prova concreta da existência. Muito da nossa memória vai para o arquivo do inconsciente, que pode ser revisitado nas fotografias. Isso tem um forte significado na construção da identidade. O acesso a esse registro fotográfico alcança pessoas que não tinham essa possibilidade. Abre-se assim um leque fantástico no campo emocional. Os momentos mais triviais são fotografados — analisa.
A aposentada Maria Eunice Franco da Conceição, de 53 anos, hoje registra detalhes prosaicos de sua vida com a euforia da criança que não teve chance de deixar uma única imagem sua para o futuro. Criada em Feira de Santana, cidade agreste a 107 quilômetros de Salvador, na Bahia, Eunice lembra poeticamente de uma infância sem glamour ou brinquedos. Tem uma memória fotográfica dos dissabores vividos naquele chão de terra batida, dos sonhos que tinha sobre um colchão de capim. A primeira foto de si mesma foi a da carteira de trabalho. Depois veio a que aparece grávida da filha, Taís Angélica, hoje com 23 anos. Maria Eunice já tinha 30. No ano passado, ela tornou-se uma das alunas do curso de Fotografia Social organizado pela UniSuam e pela Prefeitura do Rio no Complexo do Alemão, onde mora.
— Eu não me lembro de qualquer fotografia. Mas me lembro da imagem de um lugar vago, muita terra seca, vermelha, o sol tremia, eu de pezinhos no chão, magrinha, com uma lata d’água na cabeça — conta Maria Eunice, que, com os cinco irmãos, foi abandonada pela mãe dos oito aos 12 anos.
Do pai, não ficou imagem concreta alguma. Apenas uma vaga recordação:
— Ele era mau, coloquei isso na minha mente, aí eu não me lembro dele. Sei que era alto, sarará. Me recordo do vestido que usei no enterro dele, branco com bolinhas pretas. E esse vestido acabou se tornando o de todas as festas. Era o único que eu tinha.
A mãe, Aldair Franco da Conceição, de 73 anos, que tinha se mudado para o Rio, voltou a criar os filhos depois da morte do ex-marido, quando Maria Eunice tinha 12 anos. Dona Aldair é o foco predileto das fotos da filha. Elas organizam uma intensa agenda de passeios, tudo documentado em fotos. A tecnologia ainda assusta. Dona Aldair só vê as imagens em papel. Eunice também prefere o acervo à moda antiga.
A
história da família Gomes, até a geração de Camila Claudia, hoje com 21
anos, é apenas oral. Não há um único registro fotográfico dessa vida
nômade. Nem fotos, nem documentos. Camila não tem certidão de
nascimento, o que impede o acesso aos direitos mais elementares. E não
se lembra de ter visto fotos da mãe.
Uma aflição latente ficou de
herança. Os nascimentos de Camille, de 2 anos, e Sofia, de 5 meses,
trouxeram um novo desejo à vida da menina sem foto. Há pouco menos de
dois anos, ela comprou um celular com câmera, exclusivamente para
fotografar a primeira filha.Camila tem a chance agora de deixar impressa sua passagem pelo mundo. Ela ilustra farta variedade de estatísticas que apontam para o consumo crescente de celulares e câmeras digitais no país, instrumentos também de inclusão. Nos últimos três anos, o item de consumo que mais cresceu no Brasil foi a câmera digital (de 20% para 35%), indicam dados da consultoria Kantar Worldpanel, divulgados em setembro. Um estudo da Fecomércio do ano passado mostra que, de 2003 a 2009, o gasto com celular já havia aumentado 63,6% em todas as classes sociais. Na E, chegou a 312%. Soma-se a estes um outro dado, e a equação se completa: cerca de 66% dos brasileiros usam o celular para tirar fotografias, segundo pesquisa do Instituto Data Popular colhida este ano.
A democratização do acesso se consolidou, confirma a assessora econômica da Fecomércio-SP, Kelly Carvalho. A oferta maior de crédito, a ascensão das classes C, D e E, e a popularização irreversível da internet são agentes dessa revolução nos costumes:
— Hoje é quase impossível imaginar alguém que não tenha acesso a isso.
A antropóloga Hilaine Yaccoub, uma das autoras do blog Consumoteca, que analisa hábitos de consumo das classes C, D e E, atesta que estamos diante de novos tempos, moldados pela democratização do acesso ao registro de imagens. Tempos em que as classes populares deixaram de ser apenas o objeto fotografado (e, mesmo assim, discretamente) e tornaram-se também agentes desse universo pictórico: são produtores, em escala crescente, de imagens de seu cotidiano.
— A história oral da vida das famílias passa a ter um registro. As fotografias são uma narrativa, uma forma de contar a própria vida. Sempre quem tirava as fotos era gente de fora desse grupo social mais popular. Agora são eles falando e retratando a si mesmos. Antes, o processo era mais caro e mais complexo. Agora, é uma possibilidade de registros de descobertas. Muitas dessas descobertas são relacionadas a consumo, sabores, viagens — ressalta Hilaine.
Esse registro cotidiano era impensável em outros tempos. Antes da fotografia, no século XIX, apenas os muito ricos conseguiam pagar pelo registro, em pintura, de seus retratos.
— O homem comum não tinha esse acesso. Quando a fotografia surgiu, foi a oportunidade de a burguesia emergente ter acesso a um tipo de imagem de si mesmo que até então só a aristocracia fazia — narra o pesquisador e fotógrafo Pedro Karp Vasquez.
Enquanto comprava o celular, a prestação, Camila Claudia buscava um jeito de se registrar formalmente. Chegou a procurar em quatro cartórios de Duque de Caxias, sem o menor indício do lugar onde nascera. Ela diz que sabe seu nome porque a tia assim contou. Mas não consegue provar sua existência em nenhuma instância oficial. Enfrentou seu maior drama quando Camille nasceu, numa maternidade em Caxias: foi impedida de sair do hospital, porque não tinha como registrar a filha. Conseguiu uma autorização provisória, mas teria que providenciar os documentos. Antes disso, deixou a cidade e mudou-se para um casebre de três cômodos, na Gamboa.
Notebook para guardar fotos das filhas
A agonia se repetiu com o nascimento de Sofia. E ela se comprometeu novamente a providenciar os documentos. Antes disso, comprou, com a ajuda do marido, que ensaca farinha em um moinho, um notebook de segunda mão, cuja única função é guardar as fotos que faz das filhas. Camila agora espera o resultado de um processo aberto pela Defensoria Pública do Rio para conseguir o registro civil. E abrir caminho para o das filhas.
Camille e a irmã são fotografadas quase todos os dias em casa.
— Aqui é ela fazendo pose, ela adora ser fotografada. Ela vai poder mostrar para os filhos — exibe Camila, enquanto passa as fotos no celular. — Aqui é a Sofia, internada com bronquiolite — completa.
O registro fotográfico, para a psicóloga Maria Tereza Maldonado, ajuda na construção de uma identidade. É uma maneira de revisitar um museu pessoal.
— É uma prova concreta da existência. Muito da nossa memória vai para o arquivo do inconsciente, que pode ser revisitado nas fotografias. Isso tem um forte significado na construção da identidade. O acesso a esse registro fotográfico alcança pessoas que não tinham essa possibilidade. Abre-se assim um leque fantástico no campo emocional. Os momentos mais triviais são fotografados — analisa.
A aposentada Maria Eunice Franco da Conceição, de 53 anos, hoje registra detalhes prosaicos de sua vida com a euforia da criança que não teve chance de deixar uma única imagem sua para o futuro. Criada em Feira de Santana, cidade agreste a 107 quilômetros de Salvador, na Bahia, Eunice lembra poeticamente de uma infância sem glamour ou brinquedos. Tem uma memória fotográfica dos dissabores vividos naquele chão de terra batida, dos sonhos que tinha sobre um colchão de capim. A primeira foto de si mesma foi a da carteira de trabalho. Depois veio a que aparece grávida da filha, Taís Angélica, hoje com 23 anos. Maria Eunice já tinha 30. No ano passado, ela tornou-se uma das alunas do curso de Fotografia Social organizado pela UniSuam e pela Prefeitura do Rio no Complexo do Alemão, onde mora.
— Eu não me lembro de qualquer fotografia. Mas me lembro da imagem de um lugar vago, muita terra seca, vermelha, o sol tremia, eu de pezinhos no chão, magrinha, com uma lata d’água na cabeça — conta Maria Eunice, que, com os cinco irmãos, foi abandonada pela mãe dos oito aos 12 anos.
Do pai, não ficou imagem concreta alguma. Apenas uma vaga recordação:
— Ele era mau, coloquei isso na minha mente, aí eu não me lembro dele. Sei que era alto, sarará. Me recordo do vestido que usei no enterro dele, branco com bolinhas pretas. E esse vestido acabou se tornando o de todas as festas. Era o único que eu tinha.
A mãe, Aldair Franco da Conceição, de 73 anos, que tinha se mudado para o Rio, voltou a criar os filhos depois da morte do ex-marido, quando Maria Eunice tinha 12 anos. Dona Aldair é o foco predileto das fotos da filha. Elas organizam uma intensa agenda de passeios, tudo documentado em fotos. A tecnologia ainda assusta. Dona Aldair só vê as imagens em papel. Eunice também prefere o acervo à moda antiga.
Fonte: http://oglobo.globo.com/tecnologia/barateamento-de-celulares-cameras-revoluciona-forma-como-classes-d-e-registram-dia-dia-6629781#ixzz2BTn9BvlM
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Gorongosa National Park - Moçambique
Parque da GORONGOSA- Moçambique. Imagens espetaculares da vida selvagem.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Fundo do mar em Bali, uma das ilhas do arquipélago da Indonésia
Fundo do mar em Bali, uma das ilhas do arquipélago da Indonésia.
O filme é um verdadeiro show de imagens em alta definição.
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