domingo, 27 de julho de 2014
sábado, 26 de julho de 2014
A arte de ser avó - Raquel de Queiroz
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses,um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…
Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, àsvezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego,apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino.Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades,símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é ”devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos,profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico,deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avó, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…
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domingo, 29 de junho de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
A ‘Mulher Mais Feia do Mundo’ vai te dar uma Lição de Vida Inesquecível
"Muito, mas muito bom mesmo. Treze minutos de reflexão e exame daquilo que é valor, daquilo que é o essencial. Enquanto uns só fazem reclamar, outros fazem viver. Ilusão é pensar que a vida é apenas o que a limitada visão alcança e, com isso, viver enganchado no superficial, na casca. Prova disso é essa pessoa que, pelas suas palavras, transforma a si mesmo em alguém de rara beleza e alto grau. Que lhe seja útil, como me foi".
*Preciosidade que foi postada no Facebook pela amiga, Romilda Lorenzo Gomes-Timan
domingo, 19 de janeiro de 2014
Ingrid - Teresa Santos
E de repente Ingrid sumiu do nosso convívio.
Não a víamos mais com seu monólogos em alemão.
Caminhava sempre de cabeça baixa, com os cabelos cor de palha escorridos e que escondiam uma beleza que se desmanchava a cada dia.
Somente seus impressionantes olhos azuis lhe davam vida.
E dizer que a conheci quando a magreza não fazia parte de seu corpo.
Era uma mulher do tipo mignon. Quase gordinha.
Trabalhava como secretária executiva da presidência na Volkswagen e muitas vezes nos encontrávamos no ponto de táxi.
Ela, ao contrário de mim, estava sempre atrasada. Os motoristas do bairro adoravam levá-la porque o dia deles estava praticamente ganho com uma corrida tão longa. Quantas vezes a deixei passar na minha frente, quando só tinha um carro.
E em um estalo desapareceu. Não a via mais e nem aos sábados quando fazíamos compras no supermercado.
Soube depois que viajara para a Alemanha e que lá conheceu um alemão de origem africana.
Viveram um tempo juntos até que o romance acabou. Retornou ao Brasil e nunca mais foi a mesma.
Emagreceu, deixou os cabelos crescerem sem cuidado e começou a falar sozinha e em alemão.
Outro dia perguntei por ela a um conhecido comum.
Contou-me que tinha sido internada em uma clínica psiquiátrica. Os filhos não sabiam como proceder com ela, logo após ter quase incendiado o apartamento onde morava sozinha.
Fiquei chateada ao saber da notícia e procurava entender o que será que teria acontecido para que aquela inteligente e bela mulher surtasse daquele jeito.
Foi então que um pensamento, sempre recorrente, veio à minha mente:
- A sanidade e a loucura estão separadas por uma ínfima linha chamada razão. Uma vez rompida o desastre é inevitável.
Da série: "Olhar Urbano"
Teresa Santos, 62 anos, paulista. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida e se considera uma pessoa feliz.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014
#Sentimental - Joaquim Ferreira dos Santos
Publicado por O Globo
A partir da bossa nova um inesperado mal se escondia no coração dos homens. Não era o golpe de Estado, o vento encanado ou o bicho do pé. Era a música brega
Cafonas são os beijos que não foram dados e as lágrimas derramadas pela crítica no leito de morte desses cantores outrora chamados bregas e que agora, toda semana um morto, são declarados como joias raras da melhor música brasileira.
Descansem em paz Nelson Ned, Reginaldo Rossi, Wando, Dom, Ravel, Evaldo Braga, Waldick Soriano, Lindomar Castilho e tantos outros no mesmo panteão dos que já se foram, grandes artistas marcados pela dor macambúzia de jamais conhecerem em vida o beijo refrescante do elogio impresso.
Perdoem esta espinhela caída que vira e mexe acomete a alma fúnebre nacional, uma viúva escrota sempre disposta a declarar simpatia culta hoje pelo cantor velhinho de mau gosto que morreu ontem.
Vocês eram pobres, tinham a pele oleosa, o cabelo esticado com meia de nylon e pararam de queimar as pestanas no ginásio. Queriam cantar da vida apenas aquilo que a bandida fornecia de mais sentimental, um roteiro de dor, perfídia, perfume de gardênia, mulheres que iam embora e as súplicas ajoelhadas para que voltassem. Vocês sofriam. Os bacanas não gostam disso.
Os críticos acham que cantor brega com valor é feito bandido bom, só existe depois de morto — e esperaram Nelson Ned morrer, anão coitado apedrejado em vida, para, compungidos, segurar-lhe a alça do caixão. Quando tiveram a certeza de que o corpo começava a esfriar, disseram que ia ali a versão nacional de um Frank Sinatra bonsai.
Eu nunca namorei uma garota em cadeira de rodas, como fez Fernando Mendes, eu nunca tirei mulher da zona, como perpetrou Odair José, mas eu estava lá. Vi. Desde aquele dia de 1958, quando estalaram sob as agulhas das vitrolas nacionais as primeiras bolhas do compacto de João Gilberto com “Chega de saudade”, criou-se um novo país de belas sonoridades — ao mesmo tempo surgiu a maldição de que do outro lado do ringue ficariam os párias do mau gosto. Passamos a viver num apartheid musical. Quem não cantasse baixinho estava fedido. Quem se deixasse iluminar pela luz difusa do abajur lilás era um perdedor.
O país do santo barroco baiano, sempre orgulhoso do turbante de frutas de Carmen Miranda e da cabeleira de príncipe na cabeça do mestre-sala, deu meia volta no sapato bicolor com que ia à pândega na gafieira. Pisou no freio do exagero estético. A partir da bossa nova surgia um inesperado mal que se escondia no coração dos homens. Ele devia ser evitado a todo custo, à base de enteroviofórmio, acordes dissonantes, amor, sorriso e muita flor. O novo mal brasileiro não era o golpe de Estado, o vento encanado ou o bicho do pé. Era a música brega.
Antes havia Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Joel e Gaúcho, Isaurinha Garcia, Custódio Mesquita, todos misturados e saudados no mesmo cordão encarnado da falta de preconceito. Diferentes, mas grandes artistas ouvidos por ricos e pobres, analfabetos e espertos. Mario Reis, o dândi do Copacabana Palace, ia até a Lapa gravar em primeira mão os sambas do malandro Sinhô. Antônio Maria enchia os cornos de uísque e mandava Nora Ney repetir “Ninguém me ama, ninguém me quer”. Alguns iam de dó de peito, outros se acompanhavam de zabumbas. A batuta de Radamés Gnatalli não perguntava nada. Regia a todos no democrático palco-estúdio da Rádio Nacional.
Não havia bem e mal, brega e chique, na MPB. Tanto fazia a comadre Sebastiana do Jackson do Pandeiro quanto a Nega Luzia do Wilson Batista ou a normalista do Nelson Gonçalves. Todas comíveis, lindas, musas cortejadas nos salões. Foram-se. Como cantava Nelson Ned, “tudo passa, tudo passará”.
Talvez por isso, neste momento em que a música popular pulsa tão broxa, todo mundo querendo se passar por cool, talvez por isso pinguem essas lágrimas da crítica pelos artistas-mortos que ela maltratou em vida.
Os tais bregas botavam os bofes para fora, como Núbia Lafayette, rasgavam os paletós no auge da súplica, como Orlando Dias, saíam declamando poemas como Silvinho. As fãs de Wando, agradecidas por terem suas vidas colocadas com tanta emoção em cena, jogavam sobre o palco o testemunho efusivo da vibração de suas calcinhas. Foi no tempo do crime passional, do coração fora do peito, do pulso sangrando, da camisola do dia tão transparentemente macia, da porta batendo para nunca mais e do chifre espetando a alma nacional.
Paulo Sérgio, Anísio Silva, Evaldo Braga, Luis Ayrão, Claudio Fontana, Altemar Dutra e Amado Batista. Nesses aplicativos modernos, onde as moças de hoje avaliam os rapazes começando pelas suas dimensões penianas, seria colocada ao lado do nome desses cantores bregas a hashtag #sentimental. Seria uma avaliação positiva. O tamanho do documento era outro
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ORACY
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