domingo, 2 de novembro de 2014
domingo, 27 de julho de 2014
sábado, 26 de julho de 2014
A arte de ser avó - Raquel de Queiroz
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses,um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…
Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, àsvezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego,apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino.Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades,símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é ”devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos,profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico,deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avó, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…
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ORACY
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domingo, 29 de junho de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
A ‘Mulher Mais Feia do Mundo’ vai te dar uma Lição de Vida Inesquecível
"Muito, mas muito bom mesmo. Treze minutos de reflexão e exame daquilo que é valor, daquilo que é o essencial. Enquanto uns só fazem reclamar, outros fazem viver. Ilusão é pensar que a vida é apenas o que a limitada visão alcança e, com isso, viver enganchado no superficial, na casca. Prova disso é essa pessoa que, pelas suas palavras, transforma a si mesmo em alguém de rara beleza e alto grau. Que lhe seja útil, como me foi".
*Preciosidade que foi postada no Facebook pela amiga, Romilda Lorenzo Gomes-Timan
domingo, 19 de janeiro de 2014
Ingrid - Teresa Santos
E de repente Ingrid sumiu do nosso convívio.
Não a víamos mais com seu monólogos em alemão.
Caminhava sempre de cabeça baixa, com os cabelos cor de palha escorridos e que escondiam uma beleza que se desmanchava a cada dia.
Somente seus impressionantes olhos azuis lhe davam vida.
E dizer que a conheci quando a magreza não fazia parte de seu corpo.
Era uma mulher do tipo mignon. Quase gordinha.
Trabalhava como secretária executiva da presidência na Volkswagen e muitas vezes nos encontrávamos no ponto de táxi.
Ela, ao contrário de mim, estava sempre atrasada. Os motoristas do bairro adoravam levá-la porque o dia deles estava praticamente ganho com uma corrida tão longa. Quantas vezes a deixei passar na minha frente, quando só tinha um carro.
E em um estalo desapareceu. Não a via mais e nem aos sábados quando fazíamos compras no supermercado.
Soube depois que viajara para a Alemanha e que lá conheceu um alemão de origem africana.
Viveram um tempo juntos até que o romance acabou. Retornou ao Brasil e nunca mais foi a mesma.
Emagreceu, deixou os cabelos crescerem sem cuidado e começou a falar sozinha e em alemão.
Outro dia perguntei por ela a um conhecido comum.
Contou-me que tinha sido internada em uma clínica psiquiátrica. Os filhos não sabiam como proceder com ela, logo após ter quase incendiado o apartamento onde morava sozinha.
Fiquei chateada ao saber da notícia e procurava entender o que será que teria acontecido para que aquela inteligente e bela mulher surtasse daquele jeito.
Foi então que um pensamento, sempre recorrente, veio à minha mente:
- A sanidade e a loucura estão separadas por uma ínfima linha chamada razão. Uma vez rompida o desastre é inevitável.
Da série: "Olhar Urbano"
Teresa Santos, 62 anos, paulista. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida e se considera uma pessoa feliz.
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ORACY
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