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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os legados do Império. Ad captandum vulgus, panem et circenses - Dante Mendonça


A pouco menos de 500 dias para o pontapé inicial da Copa do Mundo no Brasil, os imperadores do futebol estalam os chicotes para apressar o andar da carruagem. Fazem vistorias períodicas, chamam autoridades locais ao beija-mão e, para exibição pública de poder, contam até com o apoio da Força Pública para interditar as ruas em seus deslocamentos. Para os próximos 500 dias, fica revogada a soberania nacional. E, no caso de Curitiba, depois do Plano Agache, agora estamos sob a vigência do Plano Blatter.
Entre o real e o imaginário podemos reescrever a história, mostrando os imperadores romanos com o circo do futebol aos seus pés. O imperador Vespasiano, por exemplo. Talvez já preocupado com a Copa do Mundo na Itália, que seria realizada somente 1.855 anos depois (em 1934), no dia 22 de junho de 79 d.C. teria enviado uma carta para seu filho Tito, com os seguintes conselhos:
“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum (Coliseu). Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dês ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis (“nádegas”, em latim)? Numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro. Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum, e sempre que o olharem dirão: Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou! Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas.
Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Velca eco appareat (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo). Esperarei por ti ao lado de Júpiter”.
O imperador Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito, o generoso, inaugurou o Coliseu com 100 dias de festas, com gladiadores chutando a cabeça dos adversários, não exatamente como aconteceria em 1934, quando a Itália venceu a Tchecoslováquia por 2 a 1 e levou o caneco pela primeira vez.
Fonte: Gazeta do Povo

O Maestro Zinedine Zidane

Onde andará o meu Doutor? - Tatiana Bruscky

Hoje acordei sentindo uma dorzinha,
aquela dor sem explicação, e uma palpitação,
resolvi procurar um doutor,
fui divagando pelo caminho...
lembrei daquele médico que me atendia vestido de branco
e que para mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo...
o Meu Doutor que curava a minha dor,
não apenas a do meu corpo mas a da minha alma,
que me transmitia paz e calma!

Chegando à recepção do consultório,
fui atendida com uma pergunta:
“Qual o seu plano? “
Ah, o meu plano é viver mais e feliz!
é dar sorrisos, aquecer os que sentem frio
e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas a resposta teria que ser outra...o meu plano de saúde!

Apresentei o documento do dito cujo
já meio suado, tanto quanto o meu bolso, e aguardei...
Quando fui chamada corri apressada,
ia ser atendida pelo Doutor,
aquele que cura qualquer tipo de dor,
entrei e o olhei, me surpreendi,
rosto trancado, triste e cansado...
será que ele estava adoentado?
é, quem sabe, talvez gripado
não tinha um semblante alegre,
provavelmente devido à febre...
dei um sorriso meio de lado e um bom dia...
Sobre a mesa, à sua frente, um computador,
e no seu semblante a sua dor,
o que fizeram com o Doutor?

Quando ouvi a sua voz de repente:
O que a senhora sente?
Como eu gostaria de saber o que ELE estava sentindo...
parecia mais doente do que eu, a paciente...
Eu? ah! sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação
e esperei a sua reação,
vai me examinar, escutar a minha voz
auscultar o meu coração...
para minha surpresa apenas me entregou uma requisição e disse:
“peça autorização desses exames para conseguir a realização”...
quando li quase morri...

Tomografia computatorizada, ressonância magnética e cintilografia !

ai, meu Deus! que agonia!
eu só conhecia uma tal de abreugrafia...
só sabia o que era ressonar (dormir),
de magnético eu conhecia um olhar...
e cintilar só o das estrelas!
estaria eu à beira da morte? de ir para o céu?
iria morrer assim ao léu?
naquele instante timidamente pensei em falar:
terá o senhor uma amostra grátis
de calor humano para aquecer esse meu frio?
que fazer com essa sensação de vazio? e observe, Doutor,
o tal Pai da Medicina, o grego Hipócrates, acreditava que
A ARTE DA MEDICINA ESTAVA EM OBSERVAR.


Olhe para mim...
bem verdade que o juramento dele está ultrapassado!
médico não é sacerdote...
tem família e todos os problemas inerentes ao ser humano...
mas, por favor, me olhe, ouça a minha história!
preciso que o senhor me escute, ausculte
e examine!

Estou sentindo falta de dizer até aquele 33!
não me abandone assim de uma vez!
procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança!
alimente a minha mente e o meu coração...
me dê, ao menos, uma explicação!
O senhor não se informou se eu ando descalça... ando sim!
gosto de pisar na areia e seguir em frente
deixando as minhas pegadas pelas estradas da vida,
estarei errada?
ou estarei com o verme do amarelão?
existirá umas gotinhas de solução?

Será que já existe vacina contra o tédio?
ou não terá remédio?
que falta o senhor me faz, meu antigo Doutor!
cadê o Sccot, aquele da Emulsão?
que tinha um gosto horrível mas me deixava forte
que nem um Sansão!
e o Elixir? Paregórico e categórico,
e o chazinho de cidreira,
que me deixava a sorrir sem tonteiras?
será que pensei asneiras?

Ah! meu querido e adoentado Doutor!
sinto saudades
dos seus ouvidos para me escutar,
das suas mãos para me examinar,
do seu olhar compreensivo e amigo...
do seu pensar...
o seu sorriso que aliviava a minha dor...
que me dava forças para lutar contra a doença...
e que estimulava a minha saúde e a minha crença...
sairei daqui para um ataúde?
preciso viver e ter saúde!
por favor, me ajude!

Oh! meu Deus, cuide do meu médico e de mim,
caso contrário chegaremos ao fim...
porque da consulta só restou uma requisição
digitada em um computador
e o olhar vago e cansado do Doutor!
precisamos urgente dos nossos médicos amigos,
a medicina agoniza...
ouço até os seus gemidos...

Por favor, tragam de volta o meu Doutor!
estamos todos doentes e sentindo dor...
e peço, para o ser humano, uma receita de calor,
e para o exercício da medicina uma prescrição de amor!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Intuição - Germana de Lamare

Faz exatamente vinte anos que uma noite deixei a Galeria Menescal com as luzes das lojas já acesas, resisti a comer um quibe no árabe, quase em frente à portaria de meu consultório, e caminhei para a garagem. O dia havia sido pesado. Das oito da manhã até às sete da noite eu havia atendido nove pacientes - ansiosos, deprimidos, delirantes. Um pulo em casa para almoçar rápido e ver minha filha chegar do colégio. Rotina que obedecia sempre como aquela entre tantas outras mulheres que seguram as rédeas de uma casa sem marido. Estava exausta, peguei um sanduíche na cozinha e comecei a ler um romance que havia deixado há mais de uma semana pela metade. Ler ficção era um luxo naquela época.
Absorta, não vi minha filha chegar e dizer: “Ganhei duas entradas para assistir amanhã “Blue Jeans”, uma peça muito legal com Alexandre Frota, quem me arranjou foi a Silvia, que é amiga da Paula Thomaz, aquela minha colega de classe que namora um tal de Guilherme que trabalha na peça.” Minha filha estudava, então, no colégio São Paulo. Engoli em seco, tinha lido sobre a estreia da peça e sabia que era um espetáculo com o único objetivo de mostrar os atributos fisicos de um grupo de garotos metido a machões e de passado duvidoso. Disse que ia pensar no assunto.
No dia seguinte, me imbuí de toda a força que uma mãe pode ter ao argumentar com uma adolescente e afirmei que minha filha não iria. Armou-se uma confusão. À tarde, depois de aula, Silvia apareceu em minha casa pedindo, quase implorando, que permitisse que minha filha a acompanhasse. Fui dura, inflexível, e ainda argumentei que aquele lugar não era para ambas e não ia lhes acrescentar nada, além de ser uma peça de baixo nível. A discussão continuou dia afora. Desgastada, nervosa, cansada, acabei dando um ultimato e minha filha não foi.
No final do ano, tinha acabado a festa de Natal e voltei do consultório bem tarde como de hábito. Encontrei minha filha e Silvia sentadas no sofá em frente à televisão em estado de choque. O tal Guilherme e a colega Paula Thomaz haviam matado Daniela Perez com dezesseis facadas na noite anterior. Minha filha pálida e perplexa não falava nada, Silvia chorava intensamente. Ouvi a noticia no Jornal Nacional sem ter o que dizer, eu mesma tentava organizar meus pensamentos frente àquela loucura, imaginei o desespero da mãe da moça, da violência, da frieza do ato e a falta de sentido que não conseguia encontrar. A autora da novela deveria estar no abismo literalmente sem corpo e alma. Saí muda. De repente, ouvi a porta de meu quarto abrir e Silvia entrar enxugando as lágrimas, com o olhar aterrorizado de uma adolescente totalmente perdida e afogada num fato que lhe escapava a compreensão. Então ela me perguntou: “Tia, como é que você sabia?”


Germana de Lamare é jornalista e psiquiatra



Publicado por Anna Ramalho

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Passeio virtual pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Construído entre 1905 e 1909 como uma réplica da Ópera de Paris, com arcadas de mármore, detalhes em bronze e vitrais importados da Europa, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro pode agora ser inteiramente explorado na internet. Explore o exterior e o interior do centenário teatro carioca em um passeio completo com áudio em português e inglês, sem sair de casa.

Clique aqui e bom passeio!!!
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Você sabe qual é a origem dos contos de fadas?


No século 16, os contos de fada não eram brincadeira de criança. Sexo, violência e fome apimentavam as tramas inventadas por camponesas nas poucas horas de diversão.
Você já imaginou se o lenhador não aparecesse ao final da história para salvar
Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha?
Agora pior do que isso , E se a menina, antes de ser devorada pelo Lobo Mau, ainda fosse induzida por ele a beber o sangue da avó, além de tirar a roupa e deitar-se nua na cama? Você contaria tal historinha a seu filho? Os camponeses da França do século 16 contavam – e os detalhes violentos e libidinosos desta e de outras histórias que povoam o nosso imaginário infantil não param por aí. Se você nunca ouviu as versões apimentadas, foi por obra e graça de escritores como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen, que entre o fim do século 17 e o início do século 19 pesquisaram, recolheram e adaptaram as histórias contadas por camponesas criadas em comunidades de forte tradição oral.
Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, João e Maria, A Bela Adormecida e outros contos de fadas tão familiares foram passados de geração para geração por trabalhadores analfabetos, que se sentavam à noite em volta de fogueiras para contar histórias. Nestas reuniões, chamadas de veillées pelos franceses, as mulheres narravam seus casos enquanto fiavam e teciam, o que originou expressões como “tecer uma trama” e “costurar uma história”. Os homens consertavam suas ferramentas ou quebravam nozes. No universo dos camponeses franceses pré-Revolução, nos séculos 17 e 18, não havia tempo para descanso. Durante o Antigo Regime, diversão e trabalho misturavam-se, como na história da pobre Gata Borralheira.
Sem papas na língua, as contadoras de histórias caprichavam nos detalhes, digamos, escabrosos. Na versão original, A Bela Adormecida, por exemplo, foi violada por um anão durante o sono. Isso acontecia porque, naqueles tempos, essas não eram exatamente histórias infantis. Naquela época não havia distinção entre infância, adolescência e idade adulta. Esses contos eram galhofas, que serviam para unir a comunidade.
Tanta inspiração nascia do cotidiano: a segurança da casa e da aldeia opunha-se aos perigos da estrada e da floresta, como em Chapeuzinho Vermelho. A crueldade fazia parte do roteiro pois era pobreza e morte que se esperava do mundo no século 16. A fome, o maior mal daquele tempo, protagonizava muitas das narrativas, como em João e Maria, em que os pais abandonam as crianças na floresta por não ter como alimentá-los. No caso da história de João e Maria tem a parte da preocupação dos adultos com a fome que assolava a todos e das crianças que temiam ser abandonadas.
Tudo começa a mudar e os contos começam a ter nuances de contos de fadas com final feliz no final do século 18, quando se começa a fazer distinção entre a infância e a vida adulta. E é nesse momento da história que entraram em ação Perrault, os irmãos Grimm e, mais tarde, Andersen. Eles não foram os primeiros a passar para o papel as histórias dos camponeses, mas foram os mais bem-sucedidos em sua adaptação ao gosto da nobreza e das crianças. Perrault, por exemplo, incluiu comentários sobre os costumes e a moda das elites em suas versões para dar uma cara à nação francesa.
O que o escritor fez em seu Contos da Mamãe Gansa, de 1697, de certa forma foi o que os contadores faziam nas aldeias: adaptou um fio condutor comum a sua realidade, eliminando detalhes violentos ou de conteúdo sexual – e incluindo a “moral da história”. A adaptação ao gosto do contador, aliás, é uma marca que atravessa os tempos.
Em uma história da China do século 9, por exemplo, uma moça chamada Yeh-Hsien é ajudada por um peixe mágico, que lhe dá chinelas de ouro para a festa da aldeia. Na volta para casa, ela perde uma das chinelas, que vai parar nas mãos do governante. No fim, o chefe local apaixona-se pelos pés pequenos de Yeh-Hsien, em consonância com os costumes chineses de enfaixar os pés das meninas para que não crescessem. As diferenças culturais estão claras, mas pode-se reconhecer as origens de Cinderela no conto.Quando uma história é narrada de forma oral, normalmente é adaptada a realidade do momento. É, quem conta um conto sempre aumenta um ponto, seja na China do século 9, na França do século 18 ou nos dias de hoje.

Chapeuzinho Vermelho

Na França do século 18, Chapeuzinho Vermelho não usava um chapeuzinho vermelho. E o Lobo matava a vovó, enchia uma jarra com o seu sangue e fatiava sua carne. Quando a menina chegava, ele, já travestido, mandava que ela se servisse do vinho e da carne. Depois, pedia à menina para se deitar nua com ele. A cada peça de roupa que tirava, Chapeuzinho perguntava o que fazer, e o lobo respondia: “Jogue no fogo. Você não vai precisar mais”. E ela não perguntava dos olhos, orelhas ou nariz do algoz. Dizia, sim: “Ah, vovó, como você é peluda!”, ao que ele respondia: “É para me manter mais aquecida”. Citava ainda seus ombros largos e suas unhas compridas, em comentários sensuais, antes de dizer: “Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!”. E a história terminava com o lobo devorando a garota. Sem caçador para salvá-la, sem final feliz e sem medo de mexer com tabus.
 Na versão dos irmãos Grimm, do início do século 19, não tem banquete canibal, nem strip-tease ou mortes. Chapeuzinho, incitada pelo Lobo, desvia-se do caminho para colher flores. Enquanto isso, o lobo devora a vovozinha e veste suas roupas. Quando a gorota chega, faz as perguntas clássicas: Por que a senhora tem orelhas tão grandes?” É para te ouvir melhor”, responde o Lobo, e assim sucessivamente, passando pelos olhos, o nariz e as mãos, até a pergunta fatal: “Por que a senhora tem essa boca enorme? “É para te comer!”, diz o Lobo, devorando-a. Os Grimm incluíram na trama ainda a figura do caçador, que corta a barriga do Lobo e liberta a avó e a neta. Chapeuzinho então joga pedras na barriga do Lobo, que morre. E aprende a obedecer a mãe, a andar sempre no caminho certo e a não dar papo para lobos…