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domingo, 29 de janeiro de 2012

Desrespeito a natureza da mulher

Eu apostaria que esse texto não é do LFV, mas isso não tem a menor importância. Arrisco que ele até o assinaria de coração, com prazer e orgulho. Ele e qualquer homem de bom senso. Pessoalmente, acho-o muito bonito e irreparável.
O desrespeito à natureza tem afetado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana. Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as Mulheres!'
Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:
Habitat
Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correta
Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro.Beijos matinais e um 'eu te amo' no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial.

Flores
Também fazem parte de seu cardápio - mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

Respeite a natureza
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação... Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.

Não tolha a sua vaidade
É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, colecionar brincos, comprar sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Só não incentive muito estes últimos pontos ou você criará um monstro consumista.

Cérebro feminino não é um mito
Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram! ). Então, agüente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração. Se você se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres..
Não confunda as subespécies
Mãe é a mulher que amamentou você e o ajudou a se transformar em adulto.
Não faça sombra sobre ela

Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda. (tem gente que já sentiu isso na pele). Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar.. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo. '

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sobre o prazer de ser quem é - por Aglaé Gil

Nosso maior talento talvez esteja sendo deixado para trás, enquanto corremos com o mundo e, muitas vezes, à frente dele, adiante, como se não nos restasse nem mesmo um minuto de tolerância.
    Entretanto, se por um momento paramos e deixamos de lado o olhar que vai além e, vislumbra o todo, sem deter-se a minúcias do dia a dia e das pessoas que o constroem; se, por um simples momento nos dedicamos a reduzir nosso campo de visão e valorizar a imagem que está ali, ao alcance de nossos olhos ávidos e de nossas mãos ressequidas de carinho, nesse momento podemos ver um mundo se desenhando, limpo e valoroso.
    Dia desses, em conversa com uma amiga querida, ela me contou um fato ocorrido durante uma viagem de trem [ou ônibus? Creio que não importa o meio de locomoção, neste caso] que ela fazia até sua cidade, depois de um dia de trabalho e numa fase em que havia inúmeras coisas a serem resolvidas, enfim, um momento de fácil dispersão, quando nos voltamos para dentro de nós e ficamos envolvidos em nossos pensamentos tentando encontrar uma solução para isto e aquilo, o tempo todo maquinando e fumaçando possibilidades.
    Aconteceu que, ao lado dela, sentou-se uma senhorinha, uma mulher de idade já avançada. Minha amiga seguia, com seus fones de ouvido, mergulhada em seus pensamentos para os quais encontrou uma trilha sonora perfeita e por meio da qual procurava relaxar ao mesmo tempo em que percorria suas alternativas. A certa altura, sentiu um cheirinho bom de empadas, voltou-se ligeiramente e notou que a senhorinha estava, faceira e sossegada, fazendo uma boquinha, comendo uma empada.
    Até então, tudo dentro de absoluta ‘normalidade’. Até que minha amiga notou alguma coisa, de cor rosa, no colo da senhorinha, sob um guardanapo de papel.  Os olhos curiosos foram diretamente ao foco da atenção. Acontece que o objeto róseo era, nada mais nada menos, que as próteses da senhorinha que, para poder saborear melhor sua deliciosa empada, optara por retirá-las e assim, evitar sujá-las com a massa difícil do salgado que costuma aderir aos dentes, o que dificulta a limpeza imediata, portanto impossível naquela circunstância.
    Uma coisa simples. Pode até ser considerada nojenta, claro, para a maioria das pessoas. No entanto, minha amiga, naquele momento, conseguiu parar com o redemoinho de pensamentos pessoais e dar-se conta de algo imensamente simples e verdadeiro: à medida que nossa vida toma rumo ao lugar de onde já se sabe que o mais importante é o bem-estar, a liberdade e a independência de gestos e atos [o que, aliás, nos torna únicos], nós temos a tendência de não nos importarmos mais [e cada vez menos] com as coisas que nos deixavam transtornados, principalmente com o dragão atroz do ‘o que vão pensar de mim?’
    Talvez quem esteja lendo pense que o exemplo é radical e que não podemos nos dar ao luxo de termos atitudes tão libertas de cuidados em relação aos que nos cercam. Mas, ainda que seja assim e ainda que seja apenas um exemplo, o fato é que não deveríamos mesmo estar à mercê da estranheza que sentimos diante de coisas que podem ser muito inerentes às mazelas humanas, já que nosso corpo tende à deteriorização lenta, porém certa, ao longo dos anos.
    Afinal, o que é mais importante? Comer a empada ou me preocupar com o que vão pensar ao meu respeito?
    Nem tanto ao céu nem tanto a terra?
    Sim, pode ser, mas, talvez pudéssemos pensar mais nisso. Talvez estejamos sendo, ao longo de nossa caminhada aqui pelo ‘planeta azul’, muito superficiais e ligados a padrões que não acrescentam coisa alguma, num sentido mais amplo e essencial para nós.
    Quem sabe, ao nos preocuparmos com o que pensam de nossas atitudes, nossos gestos e opiniões, estejamos até mesmo deixando de ser mais humanos, mais ligados uns aos outros e aprendendo, juntos, a comermos com liberdade, uma boa empada.

___________________________..


[obrigada, Isabel Gonçalves,  por compartilhar seu dia a dia: tudo é sempre tão valioso!]



Aglaé Gil, 51 anos, de Curitiba – com formação em revisão e produção de textos; pesquisadora de História e Literatura; aprendiz de viver; poeta;mãe; cidadã. [não necessariamente nessa ordem]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O voo em câmera lenta do mocho grand-duc

A duração do filme é de menos de 1 minuto. O "mocho grand-duc" vem direito à câmera. A isca está fixada mesmo sobre a lente. A ave foi fotografada em movimento lento (a 1000 imagens por segundo). Os dois a três últimos segundos são extraordinários: podem-se ver as asas abrirem para frenar.

Banda Roupa Nova comemora 30 anos de carreira



Entrevista a Jô Soares

Instrumentos da Medicina Antiga


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Maria da Penha Maia Fernandes, Inspiradora da Lei 11.340, que trata de punições de agressões contra a mulher

Símbolo de luta e determinação, a farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes mostrou para a sociedade a importância de se proteger a mulher da violência sofrida no ambiente mais inesperado: seu próprio lar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A palavra e o sentimento - Teresa Santos


Semprei gostei de escrever. Sou uma entusiasta da palavra. Ela tem um significado muito particular para mim.
Lembro-me que tinha 10 anos quando participei de um concurso de redação no curso primário do Grupo Escolar Romeu de Moraes.
O tema era sobre o mar. Ganhei o primeiro lugar. Com o prêmio  vieram uma medalha em prata, um dicionário e um brinquedo.
Algum tempo depois, já no curso ginasial do Colégio Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque, nosso professor de português - Benedito Mota - fez um comentário, para toda a classe, que ele comparava a minha escrita com a de um autor nacional e que a minha modéstia declina o nome.
Fiquei muito contente em ser comparada com alguém daquele quilate. Afinal, tinha tão somente 16 anos e aquele elogio foi algo inesquecível a ponto de lembrá-lo no momento em que escrevo.
A partir daquela data comecei a escrever poesias pueris.
Elas tinha uma direção certa. Um rapaz estrangeiro, de cabelos loiros, olhos claros e de porte alto que comigo estudava.
Comprei um caderno e coloquei nele, durante os anos de 1966 a 1970, todos os meus sentimentos.
E algo curioso aconteceu neste feriado de 25 de janeiro de 2012  em que a minha querida Sampa aniversaria....
Resolvi procurar aquele caderno e depois de um certo tempo o achei.
Está amarelecido, mas a palavras continuam ali...vivas.
Foi então que mudei o tema da crônica de hoje e optei por escrever sobre a palavra e o sentimento que ela suscita. Ou seria vice-versa?
Escolhi uma poesia muito ingênua. Chega a ser bobinha  se considerarmos os padrões atuais.
Foi escrita em julho de 1967 . Parecia que eu adivinhava qual seria o destino dele e meu: uma separação que duraria quarenta anos.
Mas este é um assunto para uma próxima crônica.
 
Ei-la:
 
Amanhã onde estarás?
 
Só penso o dia que a saudade chegar
Não sei o que farei sem você
Sem seu amor, sem seu olhar  
Hoje, tudo é lindo e sonhador
Ao meu lado você está
E amanhã onde estará?
 
Só restará a saudade
Porque um dia irá partir
E não soube que um coração pulsou por ti
 
Ao ler essas palavrinhas me reporto a um tempo onde tudo era tão ingênuo e tão puro.
E percebo que, mesmo passado tanto tempo, conservo uma certa esperança pueril.
E mais uma vez a palavra me acompanha.
 
 
Teresa Santos, 60 anos, paulistana. Aposentada, mas na ativa. Formada em Letras pela Universidade São Paulo. Gosta de estudar idiomas, de viajar, de ler  e de observar o mundo. Considera o ser humano a melhor personagem para seus escritos. É grata à vida  e se considera uma pessoa feliz.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Viagem de trem entre a África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Tanzânia, O “Pride of África” (Orgulho de África)


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O “Pride of África” (Orgulho de África) é um comboio de luxo que circula desde 1989. É anunciado como o comboio mais luxuoso do mundo. Circula entre a África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Tanzânia

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carta para a amante do meu marido - Por Nadia Foes

Tê! Não sei se li em algum lugar ou ouvi dizer que mulheres que dividem o mesmo homem são irmãs de sêmen. Pois bem, antes de sua entrada triunfal na vida de meu marido e que mais tarde tornou-se o nosso marido ele teve algumas aventuras. Recordo-me de algumas. Que ver? Por exemplo, uma tinha nome de camafeu, teve outra que tinha de nome de adeus e casou com o amigo dele. Foi esta que, na festa de quinze anos de minha filha, me disse, quem diria que já fazem quinze anos que ele me falou que estava infeliz com a sua gravidez. Lhe respondi, não sei porque afinal que ia parir era eu! Sei Tê que você que tem nome de santa deve ter vivido uma tórrida paixão, você era casada com um homem culto e bonito, tinha seus filhos e um lar, aparentemente, estruturado. Sabe que eu sempre achei o seu marido lindo? Você me roubou os melhores momentos. Quando minha filha resolveu consultar, pela primeira vez, um médico ginecologista você se encarregou de escolher e marcar a consulta. Esse momento você me roubou. Todo o início do período letivo você se encarregava de escolher e comprar todo o material escolar. Esse momento você também me roubou. Quando eu mandava minhas receitas de óculos para a ótica, você ia lá e escolhia outros modelos, mais adequados. Meus batons, que o contrabandista trazia por encomenda, você não gostava da cor nem do preço. Achava um absurdo eu comprar um batom tão caro! Você se transformou em minha sombra. Até chegar ao ponto de nosso marido implicar com tudo o que eu era. A minha alegria, a minha postura, ofuscava o caso de vocês. Lembra aquela ocasião que eu fui com ele a um festa na cidade azul? E depois resolvi esticar até as termas? Naquele tempo não existia celular e ele foi obrigado a ligar para você na minha frente para avisar que nós estávamos lá. Vocês brigaram, você não gostou da idéia e ele respondeu, a idéia não foi minha, ela que quis vir para cá, mas amanhã estaremos de volta. O amanhã era sábado e eu desejava voltar só no domingo. Mas sábado estávamos de volta. Posso te garantir que nada aconteceu nas termas, ele sempre foi fiel aos casos dele, porém você estragou o meu final de semana, porque ele ficou lá, mas parecia um bicho acuado. Parabéns, você era poderosa! Fui aposentada aos trinta e oito anos. Não sei quantos anos você contava naquela época, mas era bem menos que os meus trinta e oito, porque ele me olhava e dizia você está ficando velha. Ah Tê, eu ouvi muito isso! E ouvi muitas vezes ele dizer que você era muito elegante, você foi manequim do Pamplona e ficou furioso quando a empresa onde vocês trabalhavam baixou uma norma exigindo o uso de uniforme. Você, eleganterrima, ficou inconsolável e ele também. No principio não sei bem o que você queria, se era só sexo ou, por ser casada, poderia ser um arranjo prático para os dois. O que você não contava é que a legítima era quem brilhava nas festas, quem o acompanhava nas viagens e isso ter lhe incomodado um bocado. Não é verdade? Ser a outra não deve ser fácil. E foi nessa época que você começou a pagar a Celinha que vendia jóias e que você sabia que eu conhecia, pois na sua inteligência você pagava suas jóias com cheques do nosso marido. Deve ter sido emocionante, não é? Você me roubou os momentos mágicos com meus filhos. Você roubou a minha paz e o sofrimento de uma mulher enganada não tem o que possa explicar, é uma dor sem fim. Há muito ele não usava aliança e eu também não. Pois certo dia ele chegou com um par de alianças, muito ordinárias e colocou uma no dedo dele e uma no meu. Foi simbólico Tê, era para você. Quando viajamos para a Europa, andávamos grudados dia e noite. Ele não teve como comprar um presente para você, mas me pediu para eu fazer a compra e eu fiz. Vocês estavam tão encantados. Naquela época ele abriu todas as portas e janelas para que eu resolvesse sair. Facilitou tanto que você nem imagina. Sabe aquelas coisinhas desagradáveis, tipo negociar com gerentes de banco, trocar cheques com agiota, fui colocada na frente de batalha. Pois bem, nessa época fui apresentada, por intermédio de uma amiga, a um banqueiro. Ele me trocava todos os cheques e não me cobrava juros, em nome de uma antiga amizade com minha amiga, até que certo dia ele me convidou para conhecer um lugar. Ele me levou para conhecer uma casa que era muito maior que a minha, de uma arquitetura elegantíssima, e foi na exatamente na frente dessa casa, depois de me perguntar o que eu achava, e eu achei lindíssima, ele me convidou para conhecer a casa porque a dona da casa ainda morava lá. Ele queria que eu conhecesse as obras de arte e disse que tudo aquilo seria meu desde que eu deixasse o nosso marido. Ele queria assumir a minha vida e os meus filhos. Veja só Tê, um banqueiro. Mas eu não entrei na casa, não aceitei a oferta, disse a ela que amava o nosso marido e ganhei um inimigo. Enquanto você se divertia eu costurava a vida de meus filhos, mas deixa prá lá. Fiquei triste por você quando o nosso marido conheceu a Lolita. Veja que ironia, a nossa filha mais velha contava vinte e cinco anos e a Lolita tinha dezenove e ele perdeu a cabeça pela Lolita. E você, coitadinha, foi passada para trás. Pelos meus cálculos, já contavas mais de trinta e foi trocada da mesma forma que eu fui. Só que como mulher imagino que sua dor tenha sido bem maior. Para fazer tudo o que fez comigo, você foi vingativa e cruel, mas da última vez que te vi, pensei, coitada, ele acabou com ela. Você está uma senhora bem idosa ao passo que eu congelei no tempo, mas o que eu desejo te dizer é que, se ele não me amou, não te amou, não amou a Lolita, mas sofreu um bocado quando a Lolita saiu da vida dele. Isso eu estava lá para ver e foi muito triste. Até a saúde dele ficou debilitada. Ele perdeu uma fonte de prazer. Eu senti compaixão. Agora, amor, isso ele não sentiu por nenhuma de nós. O amor verdadeiro é coisa que ele desconhece. Trair, faz parte da natureza de pessoas que não sabem amar. O mais importante é que eu soube manter a minha integridade. O meu compromisso com a vida é saber que eu jamais traí alguém, mas para isso há de se ter uma reserva ética muito grande. Minha irmã de semem, já não te desejo tanto mal. Existe a lei do retorno. O mal que vocês me fizeram retornou e naquele momento vocês se mereceram. Ele te usou e jogou fora, a Lolita deve ter voltado para o lugar de onde jamais devia ter saído e eu não sei bem se você notou, mas eu sou a dona da história.

Restaurandora de bens culturais, pintora, escultora, ourives, Em 2010 foi classificada em concurso internacional em contos e cronicas, Três livros publicados e uma coletânea do concurso Edições AG. Mora em Florianópolis, na ilha, casada, três filhos, gosta de animais domésticos, de cultivar plantas, reunir os amigos, viajar, leitura, cinema, e a paixão de escrever.

Meditação em um instante, legendado

Via Melissa Asbahr

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Portugal à venda - Zuenir Ventura

Se eu pudesse comprava com certeza uma casa portuguesa, com quatro paredes caiadas e um cheirinho de alecrim. A hora é essa. Segundo a influente revista “Visão”, o país está à venda. O estado, os bancos, as empresas, as famílias, todos estão precisando de dinheiro. Daí a moda dos leilões, que se multiplicam como “uma das formas que os portugueses encontraram para suprir as suas necessidades imediatas”. Para pagar dívidas, leiloa-se tudo: “Desde objetos pessoais ao recheio da casa, entregando os apartamentos aos bancos por não cumprimento dos empréstimos.” Mais de 140 mil famílias encontram-se com as prestações da habitação em atraso. No terceiro trimestre de 2011, cerca de 600 mil pessoas não conseguiram saldar o que deviam (é mais do que a população da cidade de Lisboa). Também as empresas estão com as suas contas atrasadas: pelo menos 6% do crédito concedido a elas, ou 7 milhões de euros, não foram pagos.


Quanto ao estado, promove a liquidação de seu patrimônio para atender às drásticas medidas de austeridade impostas pela chamada Troika (Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu), que é quem manda hoje na economia dos países do euro. Portugal já vendeu no correr do martelo 80 mil imóveis e dez mil carros, sem falar nos artigos apreendidos em portos e aeroportos (obras de arte, equipamentos eletrônicos, máquinas, sofás e até carrinhos de bebês). Mas precisa arrecadar mais, pelo menos 5 bilhões de euros, e para isso terá que privatizar suas maiores estatais, nas quais algumas empresas brasileiras estão de olho. A Eletrobrás, por exemplo, se interessa pela EDP (Energias de Portugal) e a Andrade Gutierrez já declarou a intenção de participar ativamente desse rico processo de privatização.


Estranhamente, não aparece nenhum candidato brasileiro na lista dos quatro pretendentes da TAP que “Visão” publica: British Airways/Ibéria, Qatar Airways, TAAG (angolana) e Lufthansa. No entanto, a julgar pelo que pude apurar em minha última viagem a Lisboa, a preferência da simpática companhia aérea é por uma congênere brasileira. O ex-presidente Lula teria se oferecido até para tentar atrair para o negócio uma delas, a TAM. Mas pelo visto a mediação fracassou.


Enquanto isso, os portugueses continuam fugindo da crise e buscando o Brasil. Calcula-se que nos últimos cinco anos os vistos de trabalho aumentaram quase 70%, concedidos na maioria a jovens profissionalmente qualificados. Com 20% de desemprego lá e com a expansão da economia
aqui — boom da construção civil, perspectivas do petróleo, obras para Copa do Mundo e Olimpíadas — o Brasil virou um paraíso, por exemplo, para engenheiros, arquitetos e construtores. Essa onda migratória faz lembrar o velho “Fado Tropical”, de Chico Buarque. Com tantos portugueses se mudando para cá, o Brasil, quem sabe, “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.
Fonte: Jornal O Globo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sombras do passado :: Nelson Motta

Por mais que os ficcionistas quebrem a cabeça para inventar crimes, mistérios e conspirações complexos, surpreendentes e emocionantes, os livros, filmes e seriados acabam sempre superados pela vida real. O assassinato do prefeito Celso Daniel completa dez anos sem culpados nem condenados, e pior, desde o início das investigações sete testemunhas e investigados já foram assassinados ou morreram em circunstâncias misteriosas. O principal acusado é digno de um pulp fiction: o Sombra.

O roteiro: prefeito de uma próspera cidade industrial faz um acordo com empresários correligionários para desviar dinheiro público para as campanhas do seu partido. Ninguém ganharia nada, não eram corruptos, eram patriotas a serviço da causa e do partido, afinal, estava em jogo transformar o Brasil, os nobres fins justificavam os meios sujos. Foi assim no início, mas o ser humano?

Com a dinheirama crescendo e rolando sem controle, o Sombra, chefe da operação e amigo do prefeito, começa a desviar para sua própria causa. Outros empresários do esquema, e alguns políticos que intermediavam as contribuições, também começam a meter a mão. Até que o prefeito, que não sabia de nada, descobre tudo e ameaça detonar o esquema. Seria o fim para o Sombra e a quadrilha.

O prefeito é atraído pelo Sombra para uma cilada, o carro dos dois é interceptado por bandidos e o prefeito sequestrado, o Sombra escapa ileso. Nenhum resgate é pedido, dias depois o prefeito é encontrado morto a tiros e com marcas de tortura. Contra as evidências, a polícia trata o caso como um sequestro comum, mas o Ministério Publico vai fundo nas conexões políticas. O garçom que havia testemunhado a última conversa entre o prefeito e o Sombra é executado. Em seguida, uma testemunha da morte do garçom. O bandido que fazia a ligação entre os sequestradores e o Sombra é assassinado na cadeia. O médico legista, que atestou as marcas de tortura, morre envenenado. Ameaçado, o irmão do prefeito se exila na França. O Sombra continua nas sombras, o processo não anda, logo o crime estará prescrito. E o pior de tudo: não é ficção.
 
Fonte: Jornal O Globo

O Troco - Infernize os marqueteiros que te infernizam pelo telefone

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Maestro João Carlos Martins faz Jô Soares Chorar

Olhar Urbano - Eu te amo, Por Teresa Santos


Ela se despediu ao celular com um Eu te amo, carregadinho de Eu te amo mesmo.
Jovenzinha, uns 19 - 20 anos. Bonita. Feliz.
Desligou o aparelhou e olhou pela janela do ônibus.
Lá fora aquela chuvinha chata, que cai em Sampa, em todos os Janeiros.
Sentada no banco de trás eu a observava e pensava comigo:
- Como é gostoso ouvir: Eu te amo. E como é delicioso dizer: Eu te amo.
Três simples palavrinhas e que fazem um bem enorme ao coração da gente.
Os poucos Eu te amo que recebi, na minha vida, valeram a pena. E bate uma saudade. De um tempo fantástico e que ficou no passado.
Espero que esta moça possa dizer e receber  muitas e muitas vezes Eu te amo.
Porque quando o amor acaba o significado pode ser totalmente inverso.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ela. Elis. - Por Aglaé Gil



    Eu me lembro onde estava em 19 de janeiro de 1982. Eu havia marcado uma visita a uma fábrica de refrigerantes que ficava próxima à casa onde minha irmã morava, desde que se casara, um ano antes. Foi o que fiz pela manhã e, depois, fui almoçar na casa dela, com minha mãe. Estávamos as três, sentadas, conversando, e o rádio estava ligado, como sempre deixávamos. Um costume que perdemos, talvez porque a maioria das rádios já não toque as músicas que amamos.
    De repente, silenciamos. Ouvimos, entre uma palavra e outra que dizíamos, a notícia da morte de Elis Regina.
    Foi um silêncio de espanto. Pesado, furioso.
    Eu me lembro muito bem da sensação.
    Elis havia sido, ao longo de toda uma geração que gente como ela ‘puxava’ para seguir em frente, uma das maiores, se não a maior, revelação da música popular brasileira.
    A princípio, era apenas a moça de gestos abruptos e exagerados, como exagerado era o seu penteado quando começou a cantar depois que chegou ao Rio de Janeiro, em 1964, justamente no dia do Golpe de Estado que deu início aos tantos anos de Ditadura no Brasil, dona de uma voz que não conhecia limites.
    Aos poucos, foi crescendo em desempenho para, na balança da sensibilidade, equiparar-se a sua enorme voz. A interpretação de Elis, em qualquer canção, passou a ser uma espécie de sonho de qualquer compositor que desejasse ver sua música tomar forma, ganhar corpo e sustentar-se a partir de um cantor e tornar-se alma.
    Sim, porque Elis não cantava, simplesmente. Nem mesmo interpretava, simplesmente. Elis sangrava.
    Ela tomava a canção para si e a injetava em suas veias até que chegasse ao mais íntimo de sua alma. Ela vivia cada nota, cada letra de cada palavra. E soprava tudo como um pássaro ferido, que dá seu último tom, o mais belo, antes de definhar e deitar-se sobre a esperança de ser, de novo, liberdade.
    Elis acabou sendo, desde que no Rio, portanto mais próxima de tudo o que fervilhava à beira do abismo da Ditadura, a voz que entoava os hinos de um Brasil que saiu da Bossa Nova para entrar nas canções que discursavam pela liberdade de expressão, em um Rio de Janeiro que era, então, um palanque só.
    Assim, ela trouxe à tona, a música de gente até aquele momento desconhecida da mesma forma que enfatizou como ninguém a obra dos já consagrados.
    Olhos pequenos, como todo o seu corpo, aliás, sorrisos de gengivas enormes, alma de água e vento, Elis foi mais que um furacão. Elis foi tsunami, quando o termo não era tão usado como hoje é. Ao mesmo tempo, foi a doçura que fazia valer a pena toda canção.
    E então, um belo dia, ela se foi. Voltou. É...voltou para um lugar onde se canta e se ri e se ama com mais naturalidade do que a que ela encontrou por aqui.
    E toda a música que pôde pegar, levou consigo, em seu peito de mil sons.
    Naquele dia, naquele exato dia, 19 de janeiro de 1982, a nossa música começou a ficar mais pobre.
    Porque ela, Elis, é um desses pássaros raros, de asas douradas que brilham quando refletem o sol. Ou as estrelas.
    E me ocorre, agora, uma frase de João Bosco,  da canção dele e de Aldir Blanc, que a voz da gaúcha tornou famosa: “...a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar...”
    Trinta anos depois, ela, Elis, ainda canta, forte e em bom tom, por este Brasil velho, sem porteiras, mas que hoje vive sob uma ditadura diferente, para a qual podemos dar muitos nomes. Escolhamos um.


Aglaé Gil, 51 anos, de Curitiba – com formação em revisão e produção de textos; pesquisadora de História e Literatura; aprendiz de viver; poeta;mãe; cidadã. [não necessariamente nessa ordem]

No meu tempo - Zuenir Ventura

Publicado no jornal O Globo

"O tempora! O mores!" já dizia o velho Cícero em latim, e repetíamos em português no colégio: "Que tempos! Que costumes!" Mas não só os costumes e a moral mudaram com o tempo, o clima e a linguagem também. Na minha época, por exemplo, havia quatro estações por ano, não por dia. O capitão era o último a abandonar o navio, não o primeiro, como o do Costa Concordia. As chuvas de verão eram esperadas, não uma surpresa para as autoridades. Doações que não chegavam às vítimas não eram "desvios de verba", mas roubo de dinheiro, literalmente. Político que garantia só deixar o cargo morto morria de fato, se suicidava, não saía na maior cara de pau para presidir um outrora respeitável partido.
Suposto bandido não carregava adjetivo, só arma, era bandido, e ponto final. Mais de R$200 milhões na conta de um magistrado ou funcionário de um tribunal do Rio de Janeiro era considerado um escândalo, não "movimentação financeira atípica". Na terra do Ancelmo, já se faziam saliências embaixo de edredom, como as que acabam de ocorrer entre um modelo e uma estudante no Big Brother 12, causando tanta polêmica e a eliminação do rapaz. Só que no nosso tempo não seria preciso recorrer à polícia para descobrir se eram "carícias consensuais" ou abuso sexual.
A Europa, até outro dia, servia de modelo e exemplo para o mundo todo; hoje é uma velha dama decadente, a cada dia mais humilhada e rebaixada, carente de socorro até dos países emergentes. Em passado não muito distante, o seio feminino era tido como um espaço perfeito, irretocável, ao mesmo tempo zona erógena e fonte primeira de alimentação do ser humano. A moda de "consertá-lo" por imposições cosméticas transformou-o de produtor de leite materno em depósito de silicone capaz de sujeitá-lo aos riscos de nódulos, inflamações e infecções, como está ocorrendo de maneira absurda no Brasil.
Joelhada e pontapé acima do pescoço davam desclassificação em qualquer esporte. Agora dão consagração. Vejam esse trecho da cobertura da última exibição dos chamados gladiadores do terceiro milênio: "O golpe (aquele chute "cinematográfico" de Edson Barboza no rosto do inglês Terry Etim) levou a torcida à loucura e foi elogiado como um dos mais belos da história do UFC." No meu tempo, "belo" pontapé era o que se dava na bola, não na cara do adversário. Afinal, uma coisa parece não ter mudado: hoje, prende-se bicheiro do mesmo jeito que antigamente - para soltar logo depois, como deve acontecer com Anísio Abraão, da Beija-Flor, daqui a pouco, até o carnaval.

De repente 60 (ou 2x30)

De forma despretensiosa, inscrevi um texto no concurso Premios Longevidade Bradesco Histórias de Vida. 
  Estou chegando de São Paulo, onde fui participar da premiação.
  Mandaram um motorista me buscar e me trazer e fiquei num super-hotel nos Jardins, acompanhada de meu príncipe consorte rsrsrssr.
 
  Entre quase 200 concorrentes, conquistei o 3o lugar, com direito a troféu e diploma.

  Mas, sinto como se tivesse recebido o Oscar, pois os primeiros colocados foram  jovens que trabalharam por alguns anos para escrever histórias que mereciam ser contadas.

  Meu texto foi o único produzido pela própria protagonista.
 

  O tema central era o relacionamento inter-geracional.
 
Quase caí da cadeira quando Nicete Bruno, jurada especial me perguntou: "Você é a Regina? Queria muito conhecê-la. Adorei seu texto!!"
 
  Tive, ainda, o privilégio de ser fotografada ao lado da convidada especial, Shirley MacLaine.

  É muita emoção, que gostaria de compartilhar com vocês.
 

  Abaixo, o texto premiado.

  Beijos
 
  Regina


  DE REPENTE 60 (ou 2x30)

  Ao completar sessenta anos, lembrei do filme “De repente 30”, em que a adolescente, em seu aniversário, ansiosa por chegar logo à idade adulta, formula um desejo e se vê repentinamente com trinta anos, sem saber o que aconteceu nesse intervalo. Meu sentimento é semelhante ao dela: perplexidade.

  Pergunto a mim mesma: onde foram parar todos esses anos?

  Ainda sou aquela menina assustada que entrou pela primeira vez na escola, aquela filha desesperada pela perda precoce da mãe; ainda sou aquela professorinha ingênua que enfrentou sua primeira turma, aquela virgem sonhadora que entrou na igreja, vestida de branco, para um casamento que durou tão pouco!Ainda sou aquela mãe aflita com a primeira febre do filho que hoje tem mais de trinta anos.

  Acho que é por isso que engordei, para caber tanta gente, é preciso espaço!

  Passei batido pela tal crise dos trinta, pois estava ocupada demais lutando pela sobrevivência.

  Os quarenta foram festejados com um baile, enquanto eu ansiava pela aposentadoria na carreira do magistério, que aconteceu quatro anos depois.

  Os cinquenta me encontraram construindo uma nova vida, numa nova cidade, num novo posto de trabalho.

  Agora, aos sessenta, me pergunto onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho todas as manhãs.

  Tive o privilégio de viver uma época de profundas e rápidas transformações em todas as áreas: de Elvis Presley e Sinatra a Michael Jackson, de Beatles e Rolling Stones a Madonna, de Chico e Caetano a Cazuza e Ana Carolina; dos anos de chumbo da ditadura militar às passeatas pelas diretas e empeachment do presidente a um novo país misto de decepções e esperanças; da invenção da pílula e liberação sexual ao bebê de proveta e o pesadelo da AIDS. Testemunhei a conquista dos cinco títulos mundiais do futebol brasileiro (e alguns vexames históricos).
 
  Nasci no ano em que a televisão chegou ao Brasil, mas minha família só conseguiu comprar um aparelho usado dez anos depois e, por meio de suas transmissões,vi a chegada do homem à lua, a queda do muro de Berlim e algumas guerras modernas.

Passei por três reformas ortográficas e tive de aprender a nova linguagem do computador e da internet. Aprendi tanto que foi por meio desta que conheci, aos cinquenta e dois anos, meu companheiro, com quem tenho, desde então, compartilhado as aventuras do viver.
 
  Não me sinto diferente do que era há alguns anos, continuo tendo sonhos, projetos, faço minhas caminhadas matinais com meu cachorro Kaká, pratico ioga, me alimento e durmo bem (apesar das constantes visitas noturnas ao banheiro), gosto de cinema, música, leio muito, viajo para os lugares que um dia sonhei conhecer.
 
  Por dois anos não exerci qualquer atividade profissional, mas voltei a orientar trabalhos acadêmicos e a ministrar algumas disciplinas em turmas de pós-graduação, o que me fez rejuvenescer em contato com os alunos, que têm se beneficiado de minha experiência e com quem tenho aprendido muito mais que ensinado.

  Só agora comecei a precisar de óculos para perto (para longe eu uso há muitos anos) e não tinjo os cabelos, pois os brancos são tão poucos que nem se percebe (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho após os setenta anos).

  Há marcas do tempo, claro, e não somente rugas e os quilos a mais, mas também cicatrizes, testemunhas de algumas aprendizagens: a do apêndice me traz recordações do aniversário de nove anos passado no hospital; a da cesárea marca minha iniciação como mãe e a mais recente, do câncer de mama (felizmente curado), me lembra diariamente que a vida nos traz surpresas nem sempre agradáveis e que não tenho tempo a perder.
 
  A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu, lembro de coisas que aconteceram há mais de cinquenta anos e esqueço as panelas no fogo.

  Aliás, a memória (ou sua falta) merece um capítulo à parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar o nome de alguém e começa a brincadeira de esconde-esconde. Tento fórmulas mnemônicas, recito o alfabeto mentalmente e nada! De repente, quando a conversa já mudou de rumo ou o interlocutor já se foi, eis que surge o nome ou palavra, como que zombando de mim...

  Mas, do que é que eu estava falando mesmo?

  Ah, sim, dos meus sessenta.

  Claro que existem vantagens: pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa, talvez porque não são considerados pessoas inteiras), atendimento prioritário em filas exclusivas, sentar sem culpa nos bancos reservados do metrô e a TPM passou a significar “Tranquilidade Pós-Menopausa”.

Certamente o saldo é positivo, com muitas dúvidas e apenas uma certeza: tenho mais passado que futuro e vivo o presente intensamente, em minha nova condição de mulher muito sex...agenária! 



Regina de Castro Pompeu, terceira colocada no Prêmio Longevidade Bradesco de Jornalismo, Histórias de Vida, com o texto “De repente, 60”

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO
Revista Época
PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. "Acordo todo dia com a Renascença", diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.
Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco -
 Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.
ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco -
 Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.
ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco -
A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.
ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco -
Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.
ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco -
Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?
Eco -
Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...
ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco -
Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.
ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco - 
Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.
ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?
Eco -
Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.
ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?
Eco -
 Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.
ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.
ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?
Eco -
Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?
Eco -
Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.
ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco -
Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).
ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco -
Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.
ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco -
Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.
ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?
Eco -
O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.
ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco -
Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.
ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco -
Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.
ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco -
Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco -
Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.
ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco -
Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.
ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco -
Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.
ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?
Eco -
Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.
ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco -
Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2011/12/umberto-eco-o-excesso-de-informacao-provoca-amnesia.html

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

VELHOS CAMARADAS!...André Rieu

A boa música pode criar momentos mágicos, este maestro/músico/compositor, consegue sublimar esses momentos! Composta na Prússia em 1889, essa marcha é tradicionalmente utilizada nas bandas das universidades americanas e européias e também nas Academias Militares e Forças Armadas de todo o mundo e no Brasil. No final do vídeo, o maestro André Rieu explica que convocou os músicos de sopro da cidade para participarem da peça, imaginando que apareceriam uns 50. No entanto, apresentaram-se 400.

sábado, 14 de janeiro de 2012

A grandeza dos Baixinhos, Nelson Motta

Eles são chamados de tampinha, pintor de rodapé, segurança de baile infantil, piloto de autorama e chaveirinhos, mas, desde a invenção da pólvora, os baixinhos se valorizaram muito — principalmente os que atiravam bem. Mas os melhores perfumes — e os piores venenos — continuam nos menores frascos. 

Napoleão Bonaparte é o grande patrono dos baixinhos, e dominou o mundo do alto dos seus 1,62m. Em compensação, o maior pacifista da História, alem de baixinho, era magrinho e fraquinho, mas Gandhi ganhou as suas guerras sem dar um tiro. Com 1,62m o pintor de rodapé Pablo Picasso fundou a arte moderna e mudou a nossa maneira de ver o mundo.

A fábrica de ilusões do cinema, com seus truques e efeitos, é um ambiente muito favorável a tampinhas como Charles Chaplin, o primeiro a se tornar um gigante das telas com o humor e o romantismo do seu Carlitos. Grandes astros do cinema, criadores de personagens colossais — como Al Pacino e Dustin Hoffman —, não chegam a 1,67m. Nesse time sub 1,70m também entra o segurança de baile infantil Joe Pesci — principalmente com um taco de beisebol na mão. E não vá bulir com aquele tiozinho de 1,62m porque Jean Claude Van Damme é um chaveirinho enfezado que não leva desaforo pra casa. Mas não é só em frente às câmeras que eles crescem. Diretores gigantescos como Woody Allen, Martin Scorsese, Steven Spielberg e Spike Lee, que dirigem as maiores estrelas, também não passam de 1,67m, mas sua imaginação e poder não têm limites.

Ao contrário da NBA, a música favorece os baixinhos. Compositores geniais como Cole Porter e o poetinha Vinicius de Morais, e grandes vozes como Paul Simon, Freddie Mercury, Prince, Bono e Djavan, atingiram as alturas da glória.

Na bola, reinam "O" baixinho Romário, com seu talento, sua marra e seus 1,67m, o genial tampinha Maradona, que é ainda menor, e o maior craque da atualidade, Lionel Messi, 1,65m. Eles são o terror dos zagueirões do mundo inteiro.

Assim como os feiosos tentam equilibrar o jogo com simpatia e inteligência, os baixinhos têm que se esforçar mais para provar que não é o tamanho que conta — mas o que se faz com ele.
Nelson Motta, 1,67m  é jornalista

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O show da vida - Imagens belíssimas

Essas imagens foram capturadas por Louie Schwartzberg para o filme “Wings of life”, e apresentadas num encontro do TED.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Você jurou que eu ia ser feliz - Nadia Foes

 Ela acabou de entrar em casa. Tudo tão perfeito, tão minucioso, tirou o aplique de cabelos louros da cabeça e colocou com toda delicadeza no suporte de perucas e pensou: até quando? Sentou na poltrona floral predileta, próxima da janela do seu quarto, um lindo quarto estilo inglês. Logo a seguir entrou a empregada com umas frutas para o seu lanche e ela ficou a pensar: meu Deus! Hoje devo resolver a situação dela! São mais de trinta anos de serviços prestados à família. A senhora em questão começou a trabalhar para a família logo que a patroa casou. Existe uma diferença de oito anos entre elas e elas são amigas. Ela pensou: como foi bom encontrar alguém tão responsável e dedicada. Os últimos tempos ela tentou colocar mais uma empregada, mas a fiel escudeira não aceitou, pois tudo estava correndo tão bem. E nesse meio tempo, ela, a patroa, adoeceu, e como em um filme preto e branco, tudo voltou à sua memória: o inicio da vida de casada – ela até demorou para se casar, pois sabia que com a profissão que escolhera, seria difícil encontrar um marido que pudesse aceitar o fato de ter uma mulher que, além do consultório medico, ainda era chamada fora de hora para atender os seus pacientes, ela é obstetra e os bebês não têm hora para chegar. E no início o marido até gostou de sair no meio da noite para atender os chamados da maternidade, mas passada a fase do eu só vou se você for, ela passou a sair só, depois engravidou e nasceu uma linda menina. O casamento acabou, mas ela ficou com a guarda da filha. Foram anos complicados, uma criança para cuidar, plantão na maternidade, atendimento no consultório, mas ela teve na empregada uma aliada e tanto, e quando a empregada casou, já mais passada em anos, ela tentou colocar outra para cuidar da menina. Mas a empregada não aceitou. Tirando as férias e as chegadas dos próprios filhos, a empregada nunca faltou ao serviço. São trinta anos de dedicação. Depois da luta contra a doença, ela passou a se preocupar com o lado prático das coisas, pois a filha terminou a faculdade e foi estudar na França; filha única, foi fazer o ensino de elite na França, o Institut des Sciences Politiques, por onde passam as cabeças que governam o país. O mínimo que um ex-aluno dela exige, depois de passar também pela École Nationale Du Administration (ENA) ou a Écola Polytechnique (POLI) é tornar-se ministro. Pois bem, com a filha já meio caminho andado, a preocupação dela, agora, é com a justiça social. Procurar o mais rápido possível aposentar a serviçal que tão bem desempenhou o seu papel naquela família, pois com a filha na França, só restou recorrer ao ex-marido. E nada mais justo. Ele também foi servido pela empregada no tempo em que estiveram casados e logo depois, com a separação, era a empregada que ia todos os finais de semana acompanhar a menina à casa do pai. E lá ela cuidava da menina e das refeições do pai e da pequena. Foi o arranjo que a mãe encontrou para poder ir trabalhar em paz. E passou fazer os seus plantões sábados e domingos. Foram anos difíceis, muita dedicação, muito suor, mas ela estava realizada, pois nunca dependera de ninguém. E não se casou mais. Sabia que a sua profissão era incompatível com o casamento. Pois logo agora, quando estava pensando em se transferir para a França por algum tempo para acompanhar de perto sua única menina, descobriu que estava doente. Marcou a cirurgia para as férias da moça e fez tudo para não atrapalhar o andamento de suas vidas. Atendeu seus pacientes, desmarcou as consultas de suas pacientes que estavam no inicio de suas gestações, pesssoalmente, telefonou para todas elas. Pois, diga-se de passagem, que a maioria de suas novas pacientes são filhas de antigas pacientes. Enfrentou com coragem e determinação um situação tão frágil, pois agora só queria resolver a situação de sua fiel escudeira. Chamou o ex-marido, que compareceu com a nova mulher e está com ele a 20 anos. Eles chegaram pontual como ele sempre foi. Ela ficou olhando para o casal; engraçado, ela sentia uma certa simpatia pela mulher dele. E logo que eles chegaram foi servido o café que a empregada sabia como ele gostava, e ela ficou só nas suas frutas. E como num passe de mágica, ele deve ter esquecido o motivo do encontro, pois estava dando ordens dentro da casa dela. Que situação! Ele continua o mesmo, e isso o aproximou mais ainda da mulher dele, pois só as duas para compreender como ele pode ser desagradável. Imediatamente ela pediu a ele para procurar resolver a situação da aposentadoria da empregada, uma ajuda financeira, um seguro saúde, coisa que ele fez pela metade, porque é homem, é machista e achou que o que ela pedira era um exagero. Só a aposentadoria já estava de bom tamanho. Mas isso ela vai resolver, pois venceu a doença, já está recuperada e já deu o grito de alerta: Paris lá vou eu! Sua menina está a sua espera e agora ela vai trazer franceses ao mundo. Uma clínica está a sua espera e quem sabe, um novo amor.

Olhando o mar e as montanhas azuis,
Fitando a praia com seu colar de luz
Ai, ai, ai, na Praça Paris
Você jurou que eu ia ser feliz
E.B. - 1950


Restaurandora de bens culturais, pintora, escultora, ourives, Em 2010 foi classificada em concurso internacional em contos e cronicas, Três livros publicados e uma coletânea do concurso Edições AG. Mora em Florianópolis, na ilha, casada, três filhos, gosta de animais domésticos, de cultivar plantas, reunir os amigos, viajar, leitura, cinema, e a paixão de escrever.

A belíssima Nova Zelandia


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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Paraplégicos podem sim, fazer muitas coisas

Este vídeo foi realizado com o desejo de mostrar a todos as pessoas com necessidades especiais, assim como eu, que fiquei paraplégica após um acidente com um portão de ferro, de minha própria garagem, que soltou-se e me atingiu. Estou paraplégica à tres anos, mas com muita garra no processo de recuperação, e quero muito passar através deste vídeo, que nós paraplégicos podemos sim, fazer muitas coisas. Precisamos acreditar no nosso potencial, e temos forças para isto. Você pode se perguntar, que faço tudo isto porque tenho condições financeiras, nada disto...Entrei para uma ong que disponibiliza este trabalho, e para mim, foi maravilhoso. É um projeto que tem como meta, ajudar aos deficiêntes com muita dedicação e carinho. O Projeto chama-se Ampliar, em Curitiba. Obrigada a todos que divulgarem este vídeo. Laura R. Rocha.

Laura Rodrigues Rocha
• Aconteceu comigo, uma luz se apagou, cai na armadilha do destino? Estava no lugar certo, na hora errada?


No ano de 2008, exatamente no dia 22 de novembro, às 18h20 minutos, e desta data, nunca esquecerei... Fui atingida por um portão de ferro com quase 200 quilos em minha residência. Já deitada no chão senti algo estranho, muito rápido, como um raio passar por minhas pernas, queimando, e pensei “Que Dor é esta?” Nunca senti nada parecido com isto antes, tão quente e cortante, e, mal sabia eu, que esta dor estaria constantemente em todos os segundos de minha vida a partir daquele momento trágico.
Minha visão escureceu, o medo da morte veio tão forte, que me coloquei a gritar com todas as minhas forças, num vai e vem de consciente e inconsciente. Fui socorrida, e a partir de então, já no hospital recebi o diagnóstico de ter fraturado a coluna, e que teria que me submeter a uma cirurgia, que foi realizada no dia seguinte pela manhã. Passei a noite acordada em uma ansiedade muito grande. O problema maior, foi o diagnóstico, fraturei a lombar L1, L2, que se estendeu até a torácica T12. Recebi durante a cirurgia que duraram três horas, cinco pinos na coluna, duas placas, e enxerto de osso. Fiquei na UTI durante dois dias, quieta, assustada, mas tranqüila... A espera do médico. Quando fui para o quarto, sem imaginar que o prognóstico de todo este pesadelo, ainda estava por vir, e ele seria torturador. "Uma lesão medular", e conseqüentemente... A paraplegia. Desesperei-me quando percebi que minha bexiga não funcionava mais sozinha, era preciso passar uma sonda pela uretra para esvaziá-la, um cateterismo. Meu intestino, eu também não sentia mais, e era preciso induzi-lo para funcionar, meu corpo parecia enorme, quando pegava em minhas coxas, tinha a sensação de que estavam enormes, pesadas, pois meu corpo estava adormecido do quadril para baixo, devido à lesão.
No decorrer de dois dias, precisei usar um colete que me comprimia toda, neste início de toda minha história.
As pessoas que cuidavam de mim eram muitas, entre familiares e enfermeiros, senti-me virada do avesso em muitas situações marcantes. Mas nunca esquecerei meus filhos, meu marido, minha família e amigos ali tão presentes no pior momento de minha vida. Eu lia no olhar deles a preocupação, como estar planejando um novo esquema de vida, para todos da família. Passados os cinqüenta dias de internação recebi alta, voltei para casa e um quarto, um banheiro já planejado, esperava para acomodar uma pessoa paraplégica. Imaginar este quadro do antes e do depois, trás uma amargura muito grande. Aquele “eu” de antes, fica fragmentado no corpo e é muito forte a conjunção dos dois. É o momento de se conscientizar de forma muito profunda, que existe uma nova situação, ela é real, e se faz a necessidade de estar abdicando de algo que existe, a parte inferior do corpo, e aprender a engatinhar novamente, fazer, buscar, correr atrás para recuperar o que se perdeu. É uma situação que dói profundamente a alma, pela perda de uma parte tão importante do corpo, e enfrentar este luto. Os dias e noites pareciam não ter fim, eu me negava a comer, e o choro vinha fácil. É triste pensar, imaginar não poder mais ter a liberdade de ir e vir, sentir-se como uma boneca, toda largada, em um corpo sem movimento, dependendo de tudo e de todos, como um bebê, que se não cuidado, alimentado pela mãe ou outro responsável, morrerá.
E eu, tive a sorte de ser muito bem cuidada, pelos que me são próximo, caros, com muito amor. Entrei em uma fenda do tempo, bloqueei o desespero, eu precisava achar em meu cérebro, um caminho para percorrer e encontrar uma tábua de salvação para dar conta de continuar viva, como se neste bloqueio, eu conseguisse acordar de um sonho ruim, que aquilo não estava acontecendo comigo, e eu precisava muito, com muita urgência acordar daquele pesadelo. Muitas vezes, me peguei imaginando que para tudo na vida existe um jeito, menos para a morte, e se eu não morri precisava reunir forças, e me encaixar naquele corpo desengonçado. Já achando uma explicação para o ocorrido, como costumo fazer sempre. No passar dos dias, a sensação de morte impregnava todo meu ser. Olhava para meu armário, minhas coisas, minhas roupas, os sapatos que eu adorava meu perfume, meu cheiro bom... Eu não precisava mais daquelas coisas, como se realmente eu não existisse mais. Meus pés, uma parte do meu corpo que gosto muito, ficaram caídos, largados, sem vida, sapato nenhum para neles, eu Laura, vaidosa até os dentes... Não poderia mais usar saltos? Tristeza para qualquer mulher. Que dor imaginar um nunca mais andar, dentro do corpo e da mente de uma mulher vaidosa, ou não. Li em um livro, que a vida do corpo é sentimento: a pessoa sentir-se viva, alegre, bem, triste ou excitado, saber sentir-se, desvendar-se, e isto são muito importante, saber manter-se, reconhecer seu corpo. Caso contrário, vem à depressão, a devastação da negatividade da vida quando existe um desmotiva mento do indivíduo, ao negar qualquer reação em seu beneficio próprio. A lesão medular devasta a pessoa como um todo, o que era antes, dependendo da lesão, é definitiva, não existe chance de volta, parece um esvaziamento de todo conteúdo que estava guardado, revolta, dá vontade gritar, espernear, e um sentimento de mágoa do tamanho do mundo toma conta do coração, uma mágoa com Deus, porque eu, porque eu meu Deus. Senti-me perdida, impotente.
Mas como sabemos, o tempo vai curando nossas feridas, mesmo amargurada, passo a passo no sentindo de progredir, devagar fui adquirindo a percepção de lutar pela existência. Percebi claramente uma abertura interior muito grande no sentido da vida, de como é importante e lindo estar vivo, pelo existir, por poder ver o colorido das flores, por ouvir uma música e falar, falar e falar quantas vezes eu quiser, ao mundo todo, que eu não vou desistir que não me cansarei de esperar por um novo dia, e por que não, para que as pesquisas com aplicações de células tronco acabem por descobrir definitivamente, a cura. Muitas vezes nos envolvemos com coisas banais, e valorizamos muito algo que não faz sentido, não nos acrescenta nada diante do que é ter o prazer de andar, dar um passo em qualquer direção, correr, pular, chutar as águas na beira da praia, ter as pernas e os pés se movimentado novamente.
Difícil sensação de estar sentindo-se pela metade, meu corpo estava inerte, eu não podia me mexer. No hospital, comia por canudinhos, e os enfermeiros me viravam em bloco de duas em duas horas, para evitar escaras pelo corpo.
Neste momento, o diagnostico de paraplegia estava confirmado para a família, mais ainda nada estava esclarecido para mim, mais, pela feição de meus familiares, eu sentia que era muito sério, e resolvi deixar de lado estar fazendo perguntas, já que a dor que me consumia não deixava espaço para mais nada. Naqueles momentos de silêncio, eu só pensava na minha vida, no meu trabalho como psicóloga, nos pacientes que atendia, nas coisas que poderia perder minha liberdade, que é tudo para mim, não gosto de me sentir presa e pelo meu estado físico de inércia, senti-me desolada, com um buraco do tamanho do mundo no peito, muita tristeza e dor.
O Tempo passou... Três anos... Faço natação três vezes por semana, e fisioterapia. Fiz este vídeo para mostrar que nós paraplégicos mesmo diante das limitações e dores, podemos sim ser fortes e realizar muitas coisas. Como eu que escrevi um livro "A Colina Dos Lírios" , 295 páginas, que está na Editora Agbook, com vendas só via Internet. Mas meu sonho não termina por ai, enquanto escrevia "A Colina dos Lírios", sonhava com cada personagem em ação, pois a história é muito linda, de uma época lá atrás quando o amor... O casamento era sagrado, os pais escolhiam o marido para as filhas, que ainda muito jovens já se casavam, com ou sem amor, deixando muitas vezes seus sonhos jogados pelo vento. Fala dos escravos, de todo o sofrimento que passavam nas mãos de seus senhores, que comandavam suas vidas. Dos barões do café e cana de açúcar, assassinatos, capitão do mato se entregando a emoção de salvar sua sinhazinha das mãos do senhor barão, e tendo um olhar amoroso, quando avista de longe o espírito de seu senhor junto à esposa já morta pela enchente... O livro trás uma bela história, que sei que se for pincelada, restaurada do livro para uma minissérie, ficará um trabalho maravilhoso. Tenho um desejo enorme de que uma das autoras, Maria Adelaide Amaral, Glória Perez, Elizabeth Jhin, lessem meu romance. Muitos me falam se não estou querendo ir longe demais, e eu respondo que se eu fosse levar minha vida com este pensamento, eu nem estaria escrevendo esta matéria. Correr atrás de um sonho, mesmo que seja sentada em uma cadeira de rodas, persisto... Tudo vale à pena quando ainda existe vida em nós. Eu e Você... Que estamos paraplégicos sabemos do quanto é difícil, mas não podemos desistir... Jamais Temos que fazer a diferença. Um abraço.
Contato
Laura_rrodrigues@hotmail.com
Blog: Estrela do meu Coração
Ou no face book Laura Rodrigues Rocha.

3 de Janeiro
Laura Rodrigues Rocha