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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A esquerda manda lembranças - por Aglaé Gil



Éramos assim: senhores e importunados donos de coisa alguma até que caímos na realidade esquálida dos que voam alto sem ter o cuidado de manter os pés [da razão] no chão.
Tudo foi feito pelo todo idealizado. Hoje se sabe, porém: o que é de quem tem mal se divide, também, se for nosso.
Foi sonho - tinha raízes na utopia?
Então, que tenha sido: molhou-se demais a terra, apodreceu cada parte de cada ramo de raiz.
O que ficou talvez tenha sido a certeza de que não se pode ir além se não se mantiver um olho no gato e o outro, no próprio gato [também].
O saldo positivo: milhares [exagero?] de poemas, canções, crônicas, artigos, livros, peças de teatro; lembranças de exílio, lágrimas guardadas em vidros de cristal, outras manchadas com gotas de sangue em camisas de 'tergal'. Houve também rezas[quem diria] pelas ausências jamais justificadas a contento e, depois, mais rezas ainda para que apenas lhes viesse a certeza do corpo envolto na mortalha do descaso.
Houve dor - e dela ramificou-se muito amor. É, sim. Amor em tempos sanguinolentos e com cheiro de pólvora.
Houve fardas largadas, trocadas pelas "calças Lee" e os tênis.
Houve uma esquerda que era esquerda e, que depois, grisalha e insossa, foi transformada em direita patética.
Os discursos se calaram. As pessoas descobrem o valor do dinheiro que pode comprar coberturas com vista para o mar, mansões, fazendas com milhares de alqueires, viagens pelo mundo; compra também a moça sensual da capa de revista, que espelha a juventude dos tempos em que não davam bola para um par de seios siliconados e o bronzeado encomendado, com o cuidado de se deixar marcas de biquíni cavado.
A emoção flamejante foi se apagando. As pessoas descobrem que a situação não é tão má, pois com ela também pode-se fazer muito, pode-se efetivamente 'pôr da mão na massa', tentar, tentar.

E têm filhos com suas Lolitas e desfilam com elas em matérias pagas de revistas cujo conteúdo é ralo ou em noites regadas a todo o prazer inebriante do capitalismo - a parte menos [ou mais?] selvagem dele.
Então, depois que as calças "Lee" foram trocadas pelos ternos caros e bem cortados [ que interessa isso?] que ostentam etiquetas cujos contornos o povo [aquele, por quem se fez passeata e se sonhou] jamais conhecerá, depois de tanto e mais tanto, senta-se numa plateia e se assiste a uma nova montagem "Morte e Vida Severina" como se estivesse assistindo a realidade do Haiti; ou ao "Deus nos acuda" dos meses em que chove muito e se deixa boiando nas águas turvas as pessoas [até as que não jogam lixo nos bueiros, que não haja apenas esta desculpa], suas casas, suas geladeiras compradas a prestação e o desejo de ter aquele som novo para ouvir Michel Teló cantando...
"Ai...ai...assim você me mata"
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referências:

* Morte e Vida Severina*: obra de João Cabral de Melo Neto, musicada por Chico Buarque de Holanda para o teatro, em 1965,a pedido de Roberto Freire, à época diretor do Teatro TUCA [PUC, SP]
*Se eu te pego* : música de Antonio Dyggs e Sharon Acioly, cantada por Michel Teló
Jeans - marca Lee®
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Aglaé Gil, 51 anos, de Curitiba – com formação em revisão e produção de textos; pesquisadora de História e Literatura; aprendiz de viver; poeta;mãe; cidadã. [não necessariamente nessa ordem]

2 comentários:

Maria angela freitas disse...

Muito boa a constatação, desabafo e a certeza que o sonho acabou

Aglaé disse...

Grata, Maria Angela.