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domingo, 5 de agosto de 2012

Cartas do meu tempo - Um parto - dando à luz liberdade

“Durou pouco mais de dez dias as resoluções do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro(Cremerj), que proibiam médicos de fazerem parto em casa e vetava a participação de parteiras e doulas (acompanhantes de gestantes) nos procedimentos em hospitais. Nesta segunda-feira, a 2ª Vara Federal do Rio de Janeiro suspendeu ambas as determinações, acatando a ação civil pública ajuizada na sexta-feira pelo Conselho Regional de Enfermagem (Coren-RJ).”
[texto de Pollyanne Lima e Silva, para a Veja on line, Rio de Janeiro] 


Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as resoluções eram válidas apenas no âmbito do Rio de Janeiro, como se pode confirmar no trecho da reportagem, acima. Apesar disso, o tema foi discutido amplamente, principalmente em redes sociais e muito mais naqueles perfis e páginas que se configuram em defesa da liberdade feminina com relação ao próprio corpo. Até porque, hoje, poucas coisas acabam ficando ‘localizadas’, tendo em vista a abrangência da mídia e a forma como a internet nos torna rapidamente tão próximos de tudo e de todos. De qualquer forma, é um assunto que merece mesmo um olhar mais demorado, atento. E por que não? Fala-se sobre tudo e todos e há coisas que devem sair do corriqueiro para tomar seu lugar em nossas mentes, como se pudéssemos agora
nos sentar em uma mesa e conversarmos a respeito, refletindo juntos. Principalmente as mulheres.
É bem verdade que existem, sim, riscos rondando um parto natural [eles sempre existiram, veja-se, lembre-se, o grande número de mulheres que já pereceram ao dar à luz]. Há também que se considerarem os riscos que rondam os nossos hospitais, sejam da rede pública ou mesmo privada. Além de tudo isso, e eu diria até principalmente, há a questão cultural, a base de formação de cada um e, um ponto essencial, crucial mesmo: a vontade soberana da mulher em relação ao que ela vivencia durante todo o período em que está engendrando em seu corpo, o filho.
A vontade da mãe é soberana, sim. É preciso que se respeite muito isso, porque aliena a possibilidade de uma pessoa saber o que é melhor para si e para seu filho – logicamente com o acompanhamento necessário durante todo o pré-natal, isso não se discute.
O momento maternidade de uma mulher lhe é sagrado [salvo raras exceções, porque sei bem que elas existem, claro] e deve acontecer em um processo de máxima paz possível, em um estado de alma repleto de positividade. Portanto, que ela escolha seu modo de entregar seu rebento ao mundo com o auxílio daqueles que lhes são próximos e jamais sofra pressões que correspondam ao que é de interesse de um grupo.
O que mexe muito comigo, e cada vez mais, é a desfaçatez com que se tem tratado “coisas de mulher”, no que me parece ser um retrocesso imenso do ponto de vista social. Tanto já foi obtido e, de repente, parecem ruir algumas boas e [acreditava-se] firmes construções. No
assunto em questão, mais uma vez reflete-se uma preocupação com o lucro fácil de cirurgias muitas vezes desnecessárias para que venha alguém ao mundo – o que, é sabido, levou, nas últimas décadas, milhões de mulheres a optarem pelas cesarianas, prática bastante comum em nosso país. Porque sempre há algum interesse obscuro [ou nem tanto] por trás de tudo o que se tenta instituir por aqui. O bom é que, hoje, essas coisas funcionam como aquele antigo jogo dos palitos: alguém mexe em um e...quando não faz direito...mexe com todos! 
Foto: Veja.abril online


Aglaé Gil,  de Curitiba – com formação em revisão e produção de textos; pesquisadora de História e Literatura; aprendiz de viver; poeta;mãe; cidadã. [não necessariamente nessa ordem]

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