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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A culpa é da Xulipa - Nadia Foes

No norte faz calor e o povo é muito agradável. Todo o mundo se comunica e todo dia é dia de festa. Se não tem festa, dá-se um jeito. Sempre tem alguém disposto. É assim: vamos fazer um tacacá? Um pirarucu de casaca? Um baião de dois? É uma animação danada. É como se diz por lá: um povo arretado. E isso é maravilhoso! A união deles me emociona. Sempre que vou visitar a filha me sinto muito bem acolhida.É um povo hospitaleiro, quente. Aqui no sul faz frio. É tudo diferente. No verão baita festa. Passa o verão e todos se recolhem para suas tocas hibernando, mas no norte é diferente. Até já andei pensando em trocar por uns tempos o sul pelo norte. Uma ocasião fomos conhecer um local lindo, chamado Hotel Pakaas, no meio da floresta amazônica, onde passamos um final de semana maravilhoso. Ficamos na piscina do hotel até a meia noite, olhando o luar e o encontro dos Rios Madeira e Mamoré. A gente tem impressão que está no meio do rio. As cabanas ficam sobre palafitas e a vegetação natural foi respeitada. Não cortaram uma árvores sequer. A fauna e a flora são muito ricas lá. Confesso que sou de procurar encrenca e se não tem eu arranjo. Pois no paradisíaco hotel encontrei com a nora do proprietário com um cãozinho muito bonitinho no colo. Como gosto muito de animais fui xeretear o cãozinho bonitinho no colo da dona e de barriga pra cima. Fiz festa pra ele, contei que minha neta tem uma igual e na animação encostei o meu rosto no cãozinho bonitinho. E o cãozinho bonitinho não gostou da intimidade e sem reserva deu uma mordida na ponta do meu nariz que na minha adolescência me incomodava muito. Vivia louca para fazer uma plástica. Até que fui num cirurgião e ele me explicou que estava dentro dos padrões para meu rosto anguloso e a boca grande. Ali não cabia um narizinho. Algum tempo ouvi dizer que o nariz da gente cai com o passar dos anos. Não é que acho que estava nesse tal de passar dos anos, porisso dona Xulipa comeu um pedaço. Foi um alvoroço danado. A dona do cãozinho bonitinho chorava, os empregados correndo com toalhas e o sangue que não ia estancar pois era uma zona muito vascularizada; foi um cenário de terror. Além de perder parte do nariz ainda tive que consolar a moça e os funcionários. Pedi a eles: por favor, a culpa não foi dela, tragam soro fisiológico. Não tinha. Tem médico aqui. Não tinha. Só na cidade mais próxima a poucas horas de viagem. E lá fomos em busca de socorro, segunda duas toalhas no rosto e como tudo estava fechado nos indicaram o hospital. Lá chegando uma enfermeira telefonou para a residência do médico e me levou para uma sala onde tinha uma mesa e no canto uma pia. Na pia um sabão azul e uma esponja grossa. E a tal enfermeira lavando a esponja com o sabão azul. Olhei desconfiada e perguntei: o que você vai fazer com isso? E ela responde: lavar seu ferimento. Perguntei: tem soro fisiológico? Me respondeu: não tem. Tem gaze? Não tem. E é com isso que você vai fazer a limpeza no meu nariz? Foi aí que fiquei doida, ensandecida. Respondi: não vai fazer isso comigo coisa nenhuma. Deixa que eu mesma limpo. Peguei um pedaço da dita toalha que o hotel me emprestou, lavei com o dito sabão azul e lavei meu ferimento. O que foi mais trágico foi quando o marido olhando dizia: falta um pedaço, falta um pedaço do nariz! O médico chegou e não tinha grande coisa para fazer. Faltava tudo. A recomendação foi volte para a capital pra tomar soro antitetânico e vacina anti-rábica. Voltamos para o hotel, almoçamos, pegamos a bagagem e voltamos para a capital. Na volta, com o pessoal todo em estado de choque, só chegamos de viagem tarde da noite. Só foi possível conseguir uma consulta no dia seguinte. Quando chegamos para a consulta, o cirurgião examinou e disse: se for para fazer um enxerto vai ficar uma bola na ponta do nariz. Tem que esperar a cicatrização para ver como vai ficar e só depois fazer uma reconstrução. Recomendou os medicamentos e lá fomos para a farmácia. Cada farmácia tem um anexo, uma espécie de posto de atendimento com pessoal capacitado. E comecei a fazer os curativos duas vezes ao dia: de manhã e à noite. Uma manhã fui atendida por uma enfermeira e a noite por um senhor. Tudo muito limpo e, dentro do possível, até que o curativo era bem feito. Parecia que eu tinha um pião na ponta do nariz. Em uma das vezes a delicada enfermeira que me atendia disse que trabalhava no hospital de hanseníase e lá eles só fazem curativo com açúcar grosso. Tem que ser do bem grosso. Perguntei: e as formigas? Ela disse: não tem perigo. Pensei com os meus botões: que fazer, eu é que não vou contrariar essa maluca. E saí de lá com açúcar grosso. À noite, na troca do curativo, perguntei ao enfermeiro que estava me atendendo a história do açúcar. E ele explicou que era para acelerar a cicatrização. Minha filha que andava muito triste pelos cantos porque achou que a volta para a casa seria adiantada para vir consultar o meu dermatologista, ficou feliz quando resolvi ficar a temporada programada. De curativa, chapéu ou boné, era assim que eu andava. E um pião na ponta do nariz. Na volta fui ao meu dermatologista que quando o estrago me abraçou e chorou. O tratamento durou doze meses. Saiu o curativo e entrou o esparadrapo e sempre de chapéu, até no inverno. Pois não é que a pele se regenerou; usei um medicamento que preencheu o buraco e o resultado que a dona Xulipa me fez uma plástica, pois a ponta do nariz ficou mais empinada. Agora, se alguém se candidatar a levantar o nariz, é só ir no Pakaas, lugar bonito, comida boa, tratamento de primeira e plástica gratuita. É só pagar as diárias. E olha que poderia ter sido um macaco porque lá eles pulam de galho em galho bem em cima de nossas cabeças. Na próxima temporada do norte, pretendo dar uma chegada lá, mas, por via das dúvidas, telefono antes para saber se a Xulipa está lá. Nunca se sabe...



Restaurandora de bens culturais, pintora, escultora, ourives, Em 2010 foi classificada em concurso internacional em contos e cronicas, Três livros publicados e uma coletânea do concurso Edições AG. Mora em Florianópolis, na ilha, casada, três filhos, gosta de animais domésticos, de cultivar plantas, reunir os amigos, viajar, leitura, cinema, e a paixão de escrever.

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