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terça-feira, 10 de abril de 2012

O contador de histórias, por Aglaé Gil



Ele sabia contar histórias como ninguém. Enquanto consertava calçados,
era capaz de criar mundos e fundos em palavras.
Sabia escrever pouco em Português, mas aprendera a ler a Bíblia, alguns livros de Eça e de alguns socialistas - literatura maldita, escondida, mas que tinha nele o efeito da anarquia.
Rezava o desmando, não suportava comando, sagrava a força do trabalho.
E era sapateiro.
Criou dez filhos seus e mais os dois que seu irmão deixou quando morreu, junto a mulher, vítimas da gripe espanhola.
Por causa dessa sua paternidade exacerbada, talvez, juntava crianças em torno de si como ninguém mais. Os aprendizes trabalhavam com prazer ouvindo as histórias que ele contava.
Suou camisa, escancarou portas para quem vinha atrás e aquelas mãos de artista só cessaram a lida quando deu um último suspiro, ainda sorrindo, enquanto tirava um sapado da forma de lacear.
Logo depois de colocar na última história, um ponto final.

 
Aglaé Gil,  de Curitiba – com formação em revisão e produção de textos; pesquisadora de História e Literatura; aprendiz de viver; poeta;mãe; cidadã. [não necessariamente nessa ordem]

2 comentários:

Nana disse...

Boa noite!
Mto bom o contador de histórias.Ao ler o texto, criamos em nossa imaginação a figura do sapateiro que nos encanta e nos leva a participar de sua vida e de suas histórias. Gostei mto.
Um abraço,
Ana maria

Aglaé Gil disse...

que delícia esse seu comentário, Nana!
obrigada por esse seu olhar especial!
abraços